Uma outra vertente de divergências na extensa agenda das mudanças climáticas é aquela sustentada por atores que, aparentemente, não duvidam da existência das mudanças em curso, mas criticam a prioridade que os governos estão atribuindo ao tema e/ou criticam o rumo das soluções que vêm sendo propostas. Vejamos alguns ângulos desse tipo de críticas.
Urgência da causa
Para os intelectuais componentes do chamado Consenso de Copenhague, dirigido pelo doutor em Ciência Política Bjorn Lomborg, os esforços e recursos investidos e a investir na mitigação e adaptação das mudanças climáticas deveriam ser, antes de tudo, aplicados em causas mais urgentes, como a forte distribuição de vitamina A e de zinco para populações mal-nutridas.
Outro foco
Já para o doutor em engenharia elétrica pelo Indian Institute of Technology e representante do governo norte-americano junto ao IPCC, Indur M. Goklany, o foco equivocado está em se concentrar esforços nas estratégias de mitigação (redução da emissão de gases do efeito estufa). No artigo Qué hacer con el cambio climático [1] (PDF 2.446 KB - Baixar Arquivo [2]), escrito para o think tank conservador Cato e também financiado pela ExxonMobil, o autor analisa: “A melhor maneira de que o mundo dispõe para combater as mudanças climáticas é promover o bem-estar, em especial das populações mais expostas; é reduzir as vulnerabilidades atuais a problemas relacionados com clima, os quais poderiam se exacerbar com as mudanças climáticas”.
Segundo ele, seria equivocado demandar a redução das emissões com fundamentos em modelos que projetam cenários de presença de gases do efeito estufa no ano de 2085. Logo, o foco deveria estar no combate às vulnerabilidades presentes, acerca das quais não haveria dúvidas.
Risco de erro
O já mencionado professor emérito de economia da Universidade de Surrey, Colin Robinson, é ainda mais contundente acerca dos riscos de se tomar decisões de grande custo com base em modelos que pretendem prever o futuro.
No caso das mudanças climáticas, o perigo está no fato de as visões de longo prazo serem mais enganadoras do que providenciais, dadas as nossas muito limitadas habilidades em prever as mudanças no clima, na tecnologia, na economia e na sociedade. A miopia humana não pode ser simplesmente substituída por tentativas bem-intencionadas de construir modelos que pretendem dar conta de situações décadas ou séculos à frente. Como dito antes, ações centralizadas, que constituem grande parte das recomendações do economista britânico Nicholas Stern, correm o risco de acabar em grandes erros. Tais ações, levadas a cabo por governos e organizações internacionais, concentram-se em visões consensuais (as quais foram freqüentemente equivocadas no passado), criando monopólios de informação e suprimindo opiniões divergentes. Sofrem, portanto, essencialmente, do mesmo problema das agora desacreditadas economias de planificação centralizada.
Custo e pesquisa
Anil Markandya, do Departamento de Economia da Universidade de Bath, na Inglaterra, no seu perspective paper sobre aquecimento global produzido para o Consenso de Copenhague, em maio de 2008, caminha em direções semelhantes ao sustentar que as estratégias de mitigação podem incorrer em custos muito elevados e que deveriam estar fortemente vinculadas a investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono e em estratégias de adaptação – o que é praticamente ignorado, por exemplo, pelo debate em torno do Protocolo de Quioto.
O problema da energia
O professor Chris Green, do Departamento de Economia da McGill University, de Montreal, Canadá, é ainda mais contundente sobre a questão de pesquisa e desenvolvimento. Também no documento Global Warming [3], produzido para o Consenso de Copenhague (PDF 169 KB - Baixar Arquivo [4]), ele sustenta que é impossível ou proibitivo do ponto de vista dos custos estabilizar as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera sem que se equacione o difícil problema tecnológico relacionado à produção de energia. Para ele, estariam equivocadas as conclusões do IPCC que sustentam que as tecnologias necessárias para mitigar o problema já estariam disponíveis.
Segundo o professor Green, “o ex-vice-presidente Al Gore estava certo quanto ao fato de que as mudanças climáticas são uma verdade inconveniente. Mas há mais de uma verdade inconveniente. A segunda é que as mudanças climáticas são um problema energético-tecnológico de difícil solução. [...] Infelizmente, o reconhecimento (especialmente nos círculos relacionados à política pública do clima) dessa segunda verdade inconveniente permanece longe de ser alcançado”.
Fardo desnecessário
Já começam a aparecer, adicionalmente, as resistências às soluções que já vêm sendo implementadas em função de suas conseqüências momentaneamente indesejáveis. Reportagem publicada no Daily Telegraph de 16 de outubro de 2008 [5] ressalta que oito países europeus, liderados pelo premier italiano, Silvio Berlusconi, ameaçam vetar a regulação européia que pretende cortar as emissões de CO2 daquela região em 20% até o ano 2020.CO2
Segundo o diário, Berlusconi atacou a medida como “um fardo desnecessário para o setor privado europeu em um momento em que a recessão está intensificando a competição econômica internacional”. Novamente, os interesses precisam ser claramente colocados na balança, como analisou o semanário britânico The Economist, na edição de 17 de janeiro de 2008, acerca das dificuldades para se chegar a uma legislação comum na União Européia: “Os escandinavos dizem que eles já são verdes, os europeus do leste que são muito pobres, os belgas que são muito pequenos, os franceses que são muito nucleares, e por aí vai”.
Links:
[1] http://www.scribd.com/full/7913434?access_key=key-2ltl9k1nb9d08ztlfqhq
[2] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/download.php?path=1nr4ft52abs0rn71tgu2.pdf
[3] http://www.scribd.com/full/7913790?access_key=key-1txamyv8tnxzjzngf159
[4] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/download.php?path=1phqihnzb0qpsj0o5ip8.pdf
[5] http://www.telegraph.co.uk/earth/main.jhtml?xml=/earth/2008/10/16/eaclimate116.xml