That the sun will not rise tomorrow is no less intelligible a proposition, and implies no more contradiction, than the affirmation, that it will rise. (A afirmação de que o sol não nascerá amanhã não é uma proposição menos inteligível e não implica menor nível de contradição do que a afirmação de que ele, sim, nascerá).
David Hume
Whenever a theory appears to you as the only possible one, take this as a sign that you have neither understood the theory nor the problem which it was intended to solve. (Sempre que uma teoria lhe aparece como a única possível, considere isso um sinal de que ou você não entendeu a teoria ou não compreendeu o problema que ela pretende resolver).
Karl Popper
Talvez o maior avanço que a filosofia ou a teoria da ciência tenha alcançado em sua milenar caminhada pela história da humanidade seja a descoberta de que não existem “verdades definitivas” quando se está produzindo um discurso científico.
O entendimento equivocado de que a empreitada científica produz “verdades inabaláveis” levaria a uma conseqüência de proporções fortemente prejudiciais para a humanidade: o não-questionamento das teorias científicas que são cotidianamente elaboradas com o intuito de explicar parcelas específicas do mundo em que vivemos.
É exatamente a percepção de que a ciência trabalha com um conhecimento probabilístico e não definitivo que torna possível seu avanço. O seguido questionamento das teorias que continuamente se apresentam com o intuito de explicar a realidade – a possibilidade de falsear enunciados científicos prévios, como sentenciaria o filósofo de ciência austríaco Karl Popper – é fundamental para que o desenvolvimento científico possa ocorrer.
Não por outra razão, as discussões científicas vêm acompanhadas de alertas tais como “com um nível de certeza de 95%” – marca estabelecida por exemplo, pelos pesquisadores do IPCC para alertar sobre a certeza que seus estudos permitem quanto à contribuição humana para as mudanças climáticas. Isso indica que há (e sempre haverá) um espaço de incerteza, maior ou menor, relacionado a todo e qualquer conhecimento produzido no âmbito do universo científico.
Dogmas e verdades absolutas são atributos importantes de outros setores da atividade humana: a religião e a política. Membros de uma determinada religião não questionam afirmações tais como “Deus existe”. Duvidar do enunciado implica, necessariamente, abandonar a religião que sustenta essa verdade.
Participantes de determinada organização política não questionam proposições normativas como “todos são iguais perante a lei”. Uma vez acordada pela maioria, a regra deve ser respeitada. Entretanto, repetimos, é parte inerente da atividade fim dos membros do mundo científico questionar, constantemente, suas premissas, seus enunciados, suas proposições e conclusões – pois tal atitude compõe o coração das regras do jogo quando estamos no território das ciências.
A ciência e a política
Esses mundos idealmente separados se intercruzam o tempo todo. Os governos – o mundo da política –, não raro, se valem das conclusões provisórias da ciência para produzir políticas públicas.
Nesse sentido, as políticas públicas são construídas levando-se em conta um certo nível de incerteza. Em outras palavras, os governos assumem riscos quando se decidem por este caminho e não por aquele, mesmo quando estão baseados no que tantas vezes se chama de “sólidas evidências científicas”.
Amanhã – como muitas vezes já ocorreu –, a ciência, de posse de novas evidências e melhores instrumentos de pesquisa, por exemplo, pode falsear as teorias que até então eram tidas como as que melhor explicavam a realidade. Neste caso, os governos necessitam corrigir rumos nas políticas públicas adotadas previamente.
Mesmo assim, a Ética da Responsabilidade necessariamente reinante na atividade política, para nós nos valermos da expressão cunhada pelo sociólogo alemão Max Weber, exige que os tomadores de decisão adotem, tendo em conta um espaço de tempo curto, este ou aquele curso de ação em face das evidências mais ou menos pujantes que se apresentam. Às vezes, não é sequer possível esperar que o nível de incerteza caia para reduzidos 5%.
Os argumentos céticos e as dúvidas concretas sobre o conhecimento científico atual não podem ser produzidos apenas a respeito das mudanças climáticas, mas sim sobre qualquer discussão que pretenda receber o rótulo de científica. Há ciência, há dúvida.
É parte inerente, portanto, da reflexão sobre as mudanças climáticas a necessidade de escutar o “outro lado”. Nesse caso, há muitos outros lados ou ângulos ainda por ser explorados.
São os próprios cientistas que já integraram o IPCC, como Paulo Artaxo, físico da Universidade de São Paulo, que relembram que o Painel trabalha dentro de uma margem de incerteza e que muito ainda não se sabe sobre o sistema climático.
Artaxo diz que atualmente o IPCC trabalha com vários modelos que tentam explicar a evolução do clima no passado e no presente. Assim, portanto, as projeções para o futuro têm maior confiabilidade. “Contudo, é importante entender que as projeções dos modelos climáticos têm muitas limitações, especialmente em termos dos processos ambientais e climáticos. Às vezes, isso não é passado de maneira adequada; é fundamental usar a palavra ‘cuidado’ quando estivermos falando à população. De toda maneira, tais limitações não nos impedem de tomar decisões e implementar medidas importantes para mitigar os efeitos das mudanças globais”.
Conforme já discutido na seção Que fenômeno é este? [1], Artaxo reforça que a ciência ainda não conhece sequer uma parte significativa dos processos que são determinantes no sistema climático. Além disso, o cientista ressalta que existem grandes lacunas na nossa compreensão sobre o funcionamento desse sistema, o que traz incertezas inerentes ao entendimento e previsões do que possa vir a acontecer com o clima de nosso planeta nos próximos séculos.
Mesmo assim, o liberal professor emérito de economia da Universidade de Surrey, no Reino Unido, Colin Robinson, avalia que “o establishment científico vê qualquer um que questione o consenso acerca das mudanças climáticas e seus efeitos quase da mesma forma como os hereges são vistos pelos movimentos religiosos. Na verdade, de diversas formas, os defensores da visão consensual conformam um movimento religioso. Como Sir Alan Peacock argüiu, eles têm seus próprios profetas e eles prontamente denunciam os descrentes”, conforme proferido na palestra Economics, Politics and Climate Change: Are the Sceptics Right? [2](Economia, Política e Mudanças Climáticas: Estão os Céticos Certos?) (PDF 139 KB - Baixar Arquivo [3]), realizada em abril de 2008.
Nesse sentido, é tarefa do jornalismo trabalhar com essas incertezas, discuti-las, dar voz aos cientistas que levantam questionamentos pertinentes sobre os trabalhos científicos que vêm sendo paulatinamente apresentados à sociedade. Se há certezas quanto a alguns pontos, excelente, vamos apresentá-las. Porém, se há dúvidas, é necessário discuti-las. As probabilidades, deste modo, não impedem nem o trabalho dos jornalistas nem dos formuladores de políticas públicas, como lembra o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) no Relatório sobre Desenvolvimento Humano de 2007 [4] (PDF 8.730 KB - Baixar Arquivo [5]):
O fato de não conhecermos as probabilidades de tais perdas [decorrentes das mudanças climáticas], ou quando terão lugar, não é um argumento válido para não tomarmos medidas de precaução. Sabemos que o perigo existe. Sabemos que os danos causados pela emissão dos gases com efeito estufa serão irreversíveis por muito tempo. Sabemos que os danos aumentarão por cada dia em que não atuarmos.
Anil Markandya, do Departamento de Economia da Universidade de Bath na Inglaterra, no seu Perspective Paper [6] (PDF 112 KB - Baixar Arquivo [7]) produzido para o Consenso de Copenhague, em maio de 2008, acrescenta: “o tema aqui é que, com o passar do tempo, nós iremos aprender mais sobre as mudanças climáticas e sobre as conseqüências das emissões que geramos hoje. Se esse processo revelar que a situação é mais positiva do que pensamos, muito bem. Mas se ele revelar que a situação é mais séria do que a nossa visão mediana, então poderá ser muito tarde para agir, isso se as ações prévias de enfrentamento da questão forem baseadas em uma visão mediana da gravidade das mudanças climáticas”.
O dilema, do ponto de vista dos políticos de curta visão e interesse imediato, está no fato de que os tomadores de decisão estão sendo chamados a gastar o dinheiro dos contribuintes atuais para enfrentar uma questão que – estando corretas as previsões – afetará eleitores que sequer nasceram.
Links:
[1] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/656
[2] http://www.scribd.com/full/7906121?access_key=key-1kdpgc8vhej85je24qxw
[3] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/download.php?path=6vm2pmtbws6n72z8kah.pdf
[4] http://www.scribd.com/full/6304988?access_key=key-5w5j1eiix616wk1ymq2
[5] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/download.php?path=2azvtffjrmpop6bc02w2.pdf
[6] http://www.scribd.com/full/7987066?access_key=key-k1atqshxzq49ve0qw78
[7] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/download.php?path=1l7kfj4dai27szr3io1z.pdf