O debate sobre as mudanças do clima necessita envolver o conjunto da sociedade, o problema não é apenas da comunidade científica ou de ambientalistas. Para isso, uma das palavras-chave é informação. Uma sociedade que consegue compreender a dimensão de um fenômeno como o das alterações climáticas certamente apresenta melhores condições de exercer seu papel na cobrança e na fiscalização de políticas públicas. Mais do que isso, o entendimento daquilo que está em jogo permitirá a cada ator social localizar com mais precisão sua responsabilidade em tal contexto.
Nesse mesmo sentido, cabe à cobertura jornalística oferecer informação clara e abrangente. As funções da imprensa, entretanto, vão muito além da disponibilização de informação contextualizada para a sociedade. Ao abordar o tema desta ou daquela maneira a imprensa contribui para o desenho da agenda pública e, ao exercer seu papel de fiscalizador das políticas, interage diretamente com os atores mais centrais no atual estágio da discussão. Aprofundando e diversificando o debate, o jornalismo influencia os tomadores de decisão no âmbito dos governos, dos outros poderes públicos, do setor privado, dos organismos internacionais e das organizações da sociedade civil.
* Leia sobre o papel da imprensa e ainda uma análise sobre a atual qualidade da cobertura das mudanças climáticas no Brasil na seção Tribuna de todas as vozes
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É central reconhecer, entretanto, que nunca é tarefa fácil para as redações o enfrentamento de temas com forte conteúdo científico – reduzindo aqui a idéia de ciência para as chamadas ciências duras, como a física, por exemplo. Estamos diante de um nicho no qual o conhecimento é fortemente envolvido por terminologias específicas e onde a compreensão de um conceito ou uma idéia depende do entendimento de conceitos e idéias anteriores. Por outro lado, é também desafio dos detentores da informação primária ofertar aos diversos públicos uma discussão mais palatável (quando aqueles são os cientistas, há sempre o risco da reflexão impenetrável).
Agrava ainda mais o quadro o fato de que as lógicas do jornalismo e da ciência são distintas. A ciência, por definição, trabalha com probabilidades (há uma chance X ou Y de tal fenômeno ocorrer). Já o jornalismo costuma operar com verdades ou, se quisermos, com fatos mais concretos (tal fenômeno ocorreu ou ocorrerá). Os tempos são também totalmente diferenciados: a ciência pode demorar anos ou décadas para chegar a uma conclusão com um maior grau de certeza, enquanto o jornalismo é instantâneo.
Por isso mesmo, no caso das mudanças climáticas o jornalismo que busca dissecar a ciência para o grande público tem a oportunidade de exercer de maneira plena seu potencial papel de mediador da informação: pode traduzir para todos aquilo que, quando muito, somente os pares dos cientistas podem entender com clareza. O que se espera, entretanto, não é apenas a tradução de uma linguagem mais hermética para outra mais próxima do cotidiano da audiência.
A exemplo do que ocorre com a cobertura de outras áreas temáticas, nas discussões científicas abordadas pela imprensa também devem ser expostos os interesses vários que vêm de mãos dadas com as aparentemente insípidas conclusões científicas. Outros lados devem ser ofertados e os impactos que vão além das constatações mais ou menos desvinculadas do contexto social amplo devem ser explorados, discutidos. Enfim, a ciência deve ser “entrevistada” como são entrevistados os políticos, os atores sociais, os empresários, etc.
O tema das mudanças climáticas está inserido em uma dessas situações complexas. Dadas as dimensões do problema, rapidamente o tema saltou do campo da ciência e da discussão dominada pelos atores que organizam a agenda meio-ambiental para as mais diversas esferas possíveis. A economia, a política, a saúde pública, a segurança internacional, a agricultura, a educação, para ficarmos nas mais óbvias, são áreas de conhecimento e ação pública – e, portanto, editorias nos meios de comunicação – que podem (e devem) estabelecer interfaces diretas como temática.
Logo, a tradução jornalística do debate científico é embebida de um desafio adicional: não basta dissecar melhor o assunto nas páginas de ciência, é preciso espraiar, de maneira contextualizada e investigativa, a discussão sobre o tema em várias editorias estabelecendo com e entre cada uma delas claras conexões no que se refere à agenda das mudanças climáticas.
Ao fim e ao cabo, é preciso que os atores que desempenham papel central na formatação, na execução e na avaliação das políticas públicas (governos, partidos políticos, formadores de opinião, órgãos de fiscalização, sociedade civil organizada e cidadãos em geral) sejam capazes de compreender o que está em foco. Só assim poderão atuar no sentido de obter os resultados mais próximos daquilo que consideram a sua (deles) situação ideal.
Cerca de 15% dos textos sobre mudanças do clima publicados em 50 jornais brasileiros, entre 2005 e 2007, trazem como perspectiva central o olhar das instituições de ensino e pesquisa. Desses textos, 72,3% fazem uso de terminologias científicas. Entretanto, apenas 4% deles se dedicam a explicar em maiores detalhes os significados das terminologias empregadas.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
Como afirma Paulo Moutinho, coordenador de pesquisa do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) [2], um passo importante é acabar com o mito do hermetismo. “A concentração do tema por um grupo restrito já acabou e as pessoas e a mídia em geral precisam entender que sim, podem compreender e também contribuir para o debate. Eu conheço jornalistas que têm medo de escrever sobre o assunto, mas esse mito tem que ser derrubado”, defende.
Por outro lado, não é possível negar que a ciência do clima ainda é um mistério até mesmo para os cientistas. Paulo Artaxo, físico da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, faz questão de destacar que o clima “é regulado por um grande número de processos, sendo que a ciência ainda não conhece sequer uma parte significativa dos aspectos determinantes das mudanças às quais o planeta está sujeito”. Ele sublinha ainda que várias lacunas existem na compreensão do funcionamento do sistema climático, “o que traz grandes incertezas quanto ao entendimento das ocorrências e a previsões do que possa vir a acontecer com o clima da Terra nos próximos séculos”.
Essa incerteza científica não permite, por exemplo, prever com exatidão os impactos do aquecimento do planeta em termos de temperatura ou em termos de elevação do nível oceânico. “Porém, sabe-se que vai ocorrer a elevação da temperatura. O que não se consegue saber é a conseqüência exata disso”, afirma Moutinho.
Mesmo essa leitura da realidade não é unanimidade na comunidade científica. Alguns pesquisadores defendem que o globo não está sofrendo aquecimento – e até que seria impossível medir as variações na temperatura da Terra.
* Leia mais sobre este debate na seção Visões discrepantes [3]
Embora ainda persistam incertezas em relação a aspectos importantes da discussão sobre a agenda das mudanças climáticas, o material produzido sobre o fenômeno por 50 jornais, no período 2005–2007, não apresenta, de forma expressiva, esse tipo de reflexão.
Menos de 2% dos textos trazem informações divergentes acerca das questões técnicas/científicas. Esse número cresce para 3% quando a real dimensão das mudanças climáticas está em pauta e para 4% quando o tema refere-se às potenciais soluções.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
Diante dos desafios que cercam o profissional de jornalismo que se dispôs a cobrir o tema de forma qualificada, vamos tratar dos principais conceitos e definições pertinentes à ciência do clima, com o objetivo de contribuir para que o comunicador aproxime sua audiência das abordagens hoje utilizadas amplamente pelas principais fontes de informação na área de mudanças climáticas.
Sim, devemos reconhecer que não estamos diante de um assunto impenetrável. Logo, é possível compreender os principais conceitos e reflexões sobre a temática. Mas não cabem ilusões: o debate é complexo. Tentar abordá-lo de forma simplista – ou seja, deixar de aproximar-se dos aspectos menos triviais que o compõem – está longe de ser a melhor alternativa para alcançar uma ampla e correta perspectiva jornalística a respeito do que já se sabe e do que se quer saber sobre o tema.
Links:
[1] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/604
[2] http://www.ipam.org.br
[3] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/712