De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas Globais (IPCC, na sigla em inglês) o aquecimento global é inequívoco e há mais de 90% de certeza científica de que as alterações no clima são intensificadas pelas atividades humanas. Para chegar a essa conclusão, o IPCC avaliou 577 trabalhos científicos, descrevendo cerca de 80 mil séries de dados, que mostram modificações significativas como recuo de geleiras, alterações de volumes de água em rios, lagos e oceanos. Assim como mudança no comportamento de peixes, aves, mamíferos e outras espécies animais e espécies vegetais.
Segundo diversos estudos, a temperatura média no planeta subiu cerca de 0,7ºC ao longo do século 20, assim como esse aquecimento vem ocorrendo de maneira mais rápida nos últimos 25 anos. A temperatura subiu em velocidade quatro vezes maior do que a média desde 1850.
É interessante registrar que tanto as causas naturais como àquelas atribuídas às atividades humanas estão contempladas nos modelos usados pelos cientistas para reproduzir, de modo geral, a curva de evolução das temperaturas do século 20. Verificou-se que as forçantes antrópicas são o fator dominante entre os anos 1970-2000. Por outro lado, se as modelagens usassem apenas as causas naturais (solar e vulcânica) o cenário provável seria um resfriamento e não um aquecimento global.
Essas informações são fruto da evolução da ciência do aquecimento global, que cresceu bastante nos últimos 20 anos. Com isso as projeções das mudanças climáticas estão cada vez mais saindo do terreno especulativo. Atualmente, o IPCC trabalha com vários modelos que tentam explicar a evolução do clima do sistema terrestre (seu passado e presente) e, em um cenário em que as simulações para o futuro apresentam maior confiabilidade. Contudo é importante entender que as projeções dos modelos climáticos têm muitas limitações, o que não devem ser impedimento para tomadas de decisões e implementação de medidas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
Os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas Globais (IPCC, na sigla em inglês) foram enfáticos em seu quarto relatório divulgado em 2007: o aquecimento global é inequívoco e há mais de 90% de certeza científica de que as mudanças climáticas são intensificadas pelas atividades humanas. Para se ter uma idéia da evolução dos estudos sobre o tema, no terceiro relatório do IPCC, de 2001, o grau de certeza científica da atribuição do aquecimento do planeta ao aumento de emissões antrópicas de gases de efeito estufa foi estimado em 66%.
Para chegar a essa conclusão, o IPCC avaliou 577 trabalhos científicos, descrevendo cerca de 80 mil séries de dados, que mostram modificações significativas em:
Os estudos atestam que a temperatura média no planeta subiu cerca de 0,7ºC ao longo do século 20 e também que há uma “aceleração” nesse aquecimento: nos últimos 25 anos a temperatura subiu numa velocidade quatro vezes maior do que a média desde 1850. Os anos de 1995 a 2006 ficaram entre os 12 anos mais quentes já registrados desde a metade do século 19.
* Compreenda por que um aquecimento médio de 0,7º C já representa sinal de alerta, ou de ameaça concreta, na seção O tempo e o clima [1]
Menos de 7% dos textos sobre as alterações climáticas publicados em 50 jornais brasileiros, no período 2005-2007, salientaram que as mudanças decorrem de fatores humanos e naturais, ainda que 30% do material tenha mencionado diversos tipos de causas específicas sem, contudo, fazer essa distinção.
É importante salientar, adicionalmente, que 17,1% dos artigos, colunas, editoriais, entrevistas e matérias veiculados apresentaram evidências científicas da ocorrência do fenômeno. Porém, um número bem menos significativo (2,8%) reportou os modelos climáticos tão utilizados pelos cientistas do IPCC.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
Determinar cientificamente a causa desse aquecimento é um processo complexo, e a comunidade científica aborda hoje a questão construindo modelos matemáticos de simulação do sistema climático – os quais incluem os principais fatores naturais e antrópicos que poderiam ser responsáveis pelo fenômeno.
Nessas simulações, o aumento detectado na temperatura só encontrou explicação no efeito estufa provocado pelas crescentes emissões antrópicas dos chamados “gases de efeito estufa”.
Elas mostram uma comparação entre as medidas de temperatura média observadas e os resultados fornecidos pelos modelos climáticos, usando primeiro apenas forçantes naturais (clique aqui [2] para saber mais sobre as causas naturais do aquecimento) e depois usando forçantes antrópicas e naturais juntas.
* Leia sobre forçantes em Equilíbrio radiativo [3]
Nessa comparação, os modelos que usam as forçantes naturais e antrópicas juntas reproduzem melhor o que aconteceu com a temperatura, tanto na escala global como considerando separadamente continentes e oceanos, de acordo com o Almanaque Brasil Socioambiental 2008 [4], publicado pelo Instituto Socioambiental.
Mas a conclusão mais importante é que, embora tanto as forçantes naturais como as antrópicas sejam necessárias aos modelos para reproduzir, de modo geral, a curva de evolução das temperaturas do século 20, as forçantes antrópicas são o fator dominante entre os anos 1970-2000. De acordo com a publicação Aquecimento Global – frias contendas científicas, de 2008, nesse período o aumento da concentração dos gases de efeito estufa e a diminuição do ozônio estratosférico prevaleceram sobre todas as outras forçantes. O resultado isolado das forçantes naturais (solar e vulcânica) teria produzido provavelmente um resfriamento e não um aquecimento global.

Sobre as causas naturais de mudanças climáticas, o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), explica que o clima da Terra muda constantemente, e a maior parte destas mudanças geofísicas ocorre em escalas de tempo de milênios e milhares de anos. Segundo Artaxo, as causas naturais das alterações no clima estão associadas, entre outras, às:
Ele explica ainda que o sistema climático terrestre mantém inter-relações com as forçantes naturais e antrópicas. Desta forma, tanto as atividades humanas quanto as forçantes naturais são importantes na regulação da estabilidade do clima de nosso planeta.
Nesse contexto, vale retomar as considerações de James Lovelock que criou a Teoria de Gaia, em 1969. Segundo o cientista inglês, a Terra trabalha para manter as condições propícias para a vida, sendo ela mesma um superorganismo vivo e não apenas um lugar habitado por seres vivos. Aparentemente, ela tem conseguido encontrar um equilíbrio na maior parte do tempo, mesmo quando abalada por asteróides, vulcanismo e mudanças na radiação solar. A dúvida é se com a pressão humana isso continuará sendo possível.
Luiz Gylvan Meira Filho, professor da Universidade de São Paulo (USP), diz que hoje os modelos matemáticos do sistema climático fornecem simulações que não deixam dúvidas de que o aumento dos gases de efeito estufa pela ação humana é o principal responsável pela elevação da temperatura da superfície nos últimos 100 anos – e não alguma forçante natural.
Segundo o professor, a ciência do aquecimento global evoluiu enormemente nos últimos 20 anos: “Dois fatores contribuíram para tirar as projeções das mudanças climáticas do terreno especulativo: nossa capacidade de quantificar as complexas interações no sistema climático cresce exponencialmente, e as evidências observacionais das mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento tornam-se dia a dia mais claras, seja a acelerada diminuição das geleiras continentais e da área coberta com gelo no Oceano Ártico, seja o aumento do nível do mar (cerca de 2 mm por ano), ou a freqüência de fenômenos extremos, que começa a dar sinais de que está aumentando”, explica.
* Mais sobre a evolução dos estudos e sobre os aspectos aquecimento, esfriamento e mudanças climáticas em Que fenômeno é este? [5]
Dos textos sobre mudanças climáticas publicados, entre 2005 e 2007, por 50 jornais brasileiros 70% fazem uso de terminologias científicas. Vale acrescentar que em 48% do material veiculado há menção aos chamados fenômenos climáticos extremos. Secas, degelos, enchentes, furações e elevação do nível dos oceanos, nessa ordem, são os mais mencionados.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
O físico da USP e membro do IPCC, Paulo Artaxo, diz que atualmente o grupo trabalha com vários modelos que tentam explicar a evolução do clima do sistema terrestre (seu passado e presente) e, portanto, as simulações para o futuro apresentam maior confiabilidade.
“Contudo é importante entender que as projeções dos modelos climáticos têm muitas limitações. Às vezes, o conhecimento sobre essas importantes limitações não é transmitido de maneira adequada para a população em geral. E os modelos ainda estão muito limitados em termos de quais processos ambientais e climáticos são considerados. É fundamental que a palavra ‘cuidado’ seja transmitida para a população, e informar que os modelos ainda são muito limitados. Entretanto, isso não nos impede de tomarmos decisões e implementarmos medidas importantes para mitigar os efeitos das mudanças globais”, conta.
* Mais sobre incerteza científica na seção Visões discrepantes [6]
Links:
[1] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/657
[2] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/content/interferencia-humana
[3] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/660
[4] http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=2528
[5] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/656
[6] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/712