A comunidade científica vem advertindo sobre as conseqüências das mudanças climáticas e ao mesmo tempo muitas populações já conhecem de perto os impactos do aquecimento do planeta.
O aumento da temperatura média, a alteração no padrão de precipitação, a área coberta por neve, o nível do mar e muitos outros parâmetros ambientais foram analisados detalhadamente pelos cientistas. As conclusões indicam que, dentro de um índice de confiabilidade de 95%, o clima de nosso planeta já está efetivamente sendo alterado. O aumento médio da temperatura global foi de 0,76 grau centígrado, mas em algumas regiões essa elevação foi muito maior.
Outros exemplos são os impactos aos corais que, com o aumento das temperaturas dos oceanos, perdem cerca de 16% das espécies. Diante disso, os peixes também são afetados porque não têm onde se abrigar e diminuem suas populações. Existem cerca de 4 mil espécies de peixes que vivem, nos ambientes dos corais, e são o sustento de cerca de 200 milhões de pessoas em todo o mundo.
Porém, mesmo levando em conta o tom de urgência, os pesquisadores esclarecem que o objetivo não é ser alarmista ou catastrofista. Apesar das incertezas científicas, as projeções feitas pelos cientistas são muito prováveis de se tornar realidade. A ciência do clima existe justamente para contribuir para a elaboração de políticas públicas que trabalhem com esses cenários e adotem medidas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, com o objetivo de que muitas projeções sejam minimizadas.
Betânia do Piauí é um município localizado no semi-árido nordestino, a 405 km de Teresina. A cidade possui um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano do país e foi lá que uma reportagem especial do Diário de Pernambuco, de agosto de 2007, retratou a realidade de uma família que integra a parte da população mais vulnerável às mudanças climáticas. Morando em uma casa de barro, pai e seis filhos dormem no chão batido e, junto com outros habitantes da cidade, passam por condições adversas. Lá, as pessoas andam quilômetros para buscar água, as lavouras são freqüentemente perdidas pela falta de chuvas, o gado morre e a pesca também é comprometida com a seca dos açudes e rios. Sem condições de sobrevivência, surgem os refugiados ambientais.
Como destaca a repórter Sílvia Bessa na matéria, a situação em que se encontram não é resultado das mudanças climáticas, mas os efeitos do fenômeno podem aumentar os já graves problemas de quem vive nessa localidade. Estudos mostram que os países ou regiões pobres e em desenvolvimento – como o semi-árido brasileiro – tendem a ser os mais afetados pelos impactos do fenômeno, embora prevejam que todo o globo será atingido pelas conseqüências ambientais, econômicas e à saúde.
* Saiba mais sobre o impacto das mudanças climáticas na vida das crianças em Situação da infância [1]
Esse cenário preocupante acendeu a luz vermelha de alerta internacional. As conseqüências das mudanças climáticas são o aspecto que mais chama a atenção da sociedade e das autoridades quando o fenômeno está em foco. Elas são as evidências palpáveis de que o mundo está diante de um problema grave. “As mudanças climáticas são reais, inequívocas e estão se acelerando. E mais: não há como reverter o processo de aquecimento global”, diz o pesquisador do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE [2]) e membro do IPCC [3], Carlos Nobre.
Reafirmando o alerta de que a agenda de desenvolvimento de todos e quaisquer países deve levar em conta o meio ambiente, Nobre acrescenta: “É importante agir de forma efetiva para que não tenhamos a confirmação dos cenários mais pessimistas. As medidas para estabilizar e reduzir as emissões de GEE são um compromisso moral com as futuras gerações”.
As conseqüências do fenômeno são o tema central de 10% dos artigos, colunas, editoriais e reportagens publicados, entre julho de 2005 e junho de 2007, por 50 diários brasileiros. Adicionalmente, 49,5% dos textos apontam conseqüências das mudanças climáticas, ainda que lateralmente. Dentro desse universo, há uma expressiva concentração de abordagem sobre as conseqüências ambientais (71%), seguidas pelas econômicas.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
Paulo Artaxo, físico e membro do IPCC, explica que um grande número de observações experimentais foi compilado pela equipe do órgão que investigou as alterações climáticas em curso em nosso planeta. “O aumento da temperatura média, a alteração no padrão de precipitação, a área coberta por neve, o nível do mar e muitos outros parâmetros ambientais foram analisados detalhadamente” diz.
As conclusões indicam que, dentro de um índice de confiabilidade de 95%, o clima de nosso planeta já está efetivamente sendo alterado. O aumento médio da temperatura global foi de 0,76 grau centígrado, mas em algumas regiões essa elevação foi muito maior.
Regiões polares em risco
De acordo com o IPCC, regiões do Ártico sofreram aquecimento da ordem de 2 graus centígrados. Nos últimos 14 anos, foram observados os 12 anos mais quentes desde 650 milênios atrás, o que ocasionou a elevação do nível do mar. “Este aumento é devido à expansão térmica da água, além do derretimento de geleiras e água congelada da Antártica, Ártico e Groenlândia. A cobertura de neve no hemisfério Norte também sofreu uma redução significativa”.
Outro estudo, divulgado em fevereiro de 2009, mostra que, na Antárdica e na Groenlândia, a situação é pior do que se imaginava. De acordo com o maior levantamento feito sobre os pólos até hoje, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o derretimento da camada de gelo dessas regiões está acontecendo em velociadade intensa. O manto de gelo de ambas está perdendo massa. Na gelo da Groenlândia, o gelo está se deteriorando cada vez mais rapidamente. Em dez anos, as águas próximas ao continente Antártico aqueceram duas vezes mais que o resto dos oceanos nos últimos 30 anos.
A consequência dessa velocidade acelerada para o futuro será uma elevação do nível do mar acima do previsto pelo IPCC. O órgão hvia previsto uma alta de 80 centímetros nos níveis dos oceanos até 2100. Se a cobertura de gelo da Antártica derreter por completo, os níveis dos mares aumentarão em até 1,5 metro.
Enquanto os oceanos aparecem em 0,8% dos textos jornalísticos sobre mudanças climáticas, as geleiras são mencionadas por 4%. Já os chamados eventos extremos são trabalhados por cerca de 30% dos artigos, editoriais, entrevistas, colunas e matérias, conforme ilustra a tabela abaixo.
| Evento | % |
| Secas | 8,8 |
| Degelos | 7,8 |
| Enchentes/ tempestades | 6,8 |
| Furacões | 5,8 |
| Elevação dos oceanos | 5,2 |
| Desertificação | 3,9 |
| Extremos climáticos | 2,3 |
| Aumento de conflitos sociais | 1,9 |
| Redução de produtividade agrícola | 1,9 |
| Savanização | 1,8 |
| Ciclones | 1,6 |
| Tornados | 0,8 |
| Tsunamis | 0,7 |
| Erraticidade climática | 0,5 |
| Aumento de pragas | 0,4 |
| Terremotos | 0,3 |
| Tormentas severas | 0,3 |
| Erupções vulcânicas | 0,2 |
| Tormentas de neve | 0,2 |
| Outros | 1,7 |
| Não menciona | 72,0 |
| Total | * |
* A tabela pode somar mais de 100%, pois um mesmo texto pode ter mencionado mais de um evento.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
O pesquisador aponta ainda outras tendências: a temperatura superficial e atmosférica está aumentando; há elevação na quantidade de vapor de água na atmosfera; crescem a intensidade de precipitação pluvial em regiões temperadas e a intensidade de furacões; decrescem a freqüência e a intensidade de períodos de seca.
É importante destacar que desastres climáticos não são conseqüências apenas das mudanças climáticas. Furacões, secas e tempestades, por exemplo, sempre existiram e continuariam existindo ainda que as causas naturais não se agregassem às alterações causadas pelo homem
Reação em cadeia
No planeta, tudo está interligado e inter-relacionado. Então, há impactos que são resultantes de outros impactos. O derretimento do gelo da Groenlândia, por exemplo, leva mais água para o oceano. Com isso, o nível do mar aumenta, e as populações que vivem na faixa litorânea ou em ilhas certamente são afetadas.
Outros exemplos são os impactos aos corais que, com o aumento das temperaturas dos oceanos, perdem cerca de 16% das espécies. Diante disso, os peixes também são afetados porque não têm onde se abrigar e diminuem suas populações. Assim, falta comida para o tubarão, que por isso vai às praias de Pernambuco atacar surfistas. Existem cerca de 4 mil espécies de peixes que vivem, nos ambientes dos corais, e são o sustento de cerca de 200 milhões de pessoas em todo o mundo.
Esses exemplos são aqui colocados com absoluta simplicidade para ilustrar sobre a lógica com que se relacionam as diversas espécies (inclusive a humana), mas é preciso registrar que vários fatores estão envolvidos nesse processo. No caso dos corais, por exemplo, o professor da Universidade Federal de Pernambuco, Mauro Maida, explica que não apenas os eventos ligados à mudança climática global afetam os recifes, mas também os impactos provocados por usos humanos como a pesca, a poluição e o mau uso do solo.
| Veja a entrevista com Rajendra Pachauri. |
Urgência sem alarmismo
Mesmo levando em conta o tom de urgência, os pesquisadores esclarecem que o objetivo não é ser alarmista ou catastrofista. “Apesar das incertezas científicas, sabemos que essas projeções são muito prováveis de se tornar realidade.
A ciência do clima existe justamente para contribuir para a elaboração de políticas públicas que antevejam esses cenários e adotem medidas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, a fim de que muitas dessas projeções sejam minimizadas”, explica o pesquisador José Marengo.
Já o presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC) [3], Rajendra Pachauri, sempre destaca em suas declarações públicas que o tempo é escasso. “Temos uma janela de oportunidade de apenas sete anos, pois as emissões terão que chegar ao máximo até 2015 e diminuir depois disso. Não podemos permitir um atraso maior", afirmou.
Também convém lembrar que as principais conclusões do quarto relatório do IPCC, lançado em novembro de 2007, indicam, com nível de confiança acima de 90%, que o aquecimento global dos últimos 50 anos é causado pelas atividades humanas.
Links:
[1] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/198
[2] http://www.inpe.br
[3] http://www.ipcc.ch/