Depois do setor energético, o de transportes é o que mais contribuiu (120%) para o aumento da emissão de GEE, entre 1970 e 2004, informa o IPCC (2007). O setor cresce 2% por ano e responde por 23% das emissões de CO² do planeta.
A boa notícia é que em todo o mundo surgem tecnologias e exemplos de como o setor pode deixar de ser um dos vilões das mudanças climáticas. Ônibus movidos a hidrogênio, carros elétricos, biocombustíveis, melhoria de transportes coletivos (metrôs, por exemplo) e também investimento em ferrovias e hidrovias já começam a ser incluídos em planejamentos de transportes de vários países.
No entanto, Felipe Azevedo, chefe do Laboratório de Monitoramento e Controle Ambiental em Transportes (Lamcat) da Universidade de Brasília, avalia que essas mudanças não são rápidas e ainda há muito chão pela frente. Ele cita em especial o uso do hidrogênio como combustível. Segundo Azevedo, ainda vai demorar para que essa tecnologia seja utilizada em larga escala. “As grandes montadoras têm projetos com hidrogênio, mas acredito que essa conversão não seja algo a curto prazo, pois há ainda outras alternativas mais baratas, como o uso de motores híbridos (biocombustível e gasolina)".
Os ônibus movidos a hidrogênio, que substituem o uso do diesel, e ao invés de poluentes emitem apenas vapor d'água, já são realidade em diversos países, como Inglaterra, Alemanha e Austrália. Existem atualmente cerca de 80 ônibus rodando no mundo. No que se refere a veículos de passeio, na Califórnia e no Japão já estão rodando 200 veículos fabricados pela Honda, em processo de fornecimento experimental que atraiu 65 mil interessados.
Cerca de 4% dos textos sobre mudanças climáticas publicados em 50 jornais brasileiros, entre julho de 2005 e junho de 2007, mencionaram estratégias de mitigação relacionadas ao setor de transportes.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
No Brasil, o governo de São Paulo, começará a testar esse tipo de transporte até o final de 2008. Em uma iniciativa binacional, o Brasil e o Paraguai poderão iniciar os primeiros testes de uso do hidrogênio como combustível para veículos no segundo semestre de 2009. A previsão é da equipe técnica responsável pelo projeto, desenvolvido em conjunto pela Itaipu Binacional e pelo Laboratório de Hidrogênio do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O que é viável hoje
O pesquisador Felipe Azevedo diz ainda que além dos biocombustíveis, como o etanol, a médio e longo prazo, o que é mais viável, como ação de mitigação das mudanças climáticas no setor, é investir em transporte público coletivo de qualidade.
Curitiba, Criciúma e Porto Alegre são alguns exemplos brasileiros. A capital paranaense usa o sistema BRT, do inglês, Bus Rapid Transit, que requer a criação de corredores exclusivos para ônibus, como parte dos planos de desenvolvimento e mobilidade urbana. Curitiba é a cidade brasileira com maior extensão de corredores exclusivos. São 72 km de canaletas, por onde circulam os ônibus biarticulados, extensão que deve crescer para 90 km.
Em Criciúma, o Sistema Integrado de Transporte Coletivo foi inaugurado em setembro de 1996 e conta com três Terminais de Integração que recebem as linhas alimentadoras, fazendo em seguida a redistribuição dos passageiros para outras linhas alimentadoras, para a linha expressa ou para a linha troncal, que interliga os terminais.
Já em Porto Alegre, a pontualidade e a grande disponibilidade de horários e de ônibus modernos já tradicionais da capital gaúcha devem se somar a uma nova iniciativa: um novo sistema de circulação e transporte no centro da cidade. Os ônibus procedentes dos bairros chegarão em três grandes portais, nas imediações do centro da cidade, onde os passageiros farão uma transferência integrada. O projeto chamado Portais da Cidade terá 24 estações e promete que a espera do passageiro não passará dos três minutos. A prefeitura já está em busca de parceria com o sistema privado para viabilizar o projeto.
Transmilênio colombiano
Um dos exemplos mais difundidos no mundo para enfrentar os complexos problemas ambientais criados pelos meios de transporte vem da capital da Colômbia, Bogotá. A cidade de 6,5 milhões de habitantes sofreu uma modificação radical entre 1998 e 2001. A “revolução nos transportes”, como foi chamada na época, é o Transmilênio, que possui ônibus expressos.
A administração surpreendeu quando decidiu que não faria mais viadutos. Como resultado, as vias do centro ficaram mais congestionadas ainda. Essa foi uma forma de pressão para que as pessoas começassem a não querer usar o carro e começassem a optar pelo sistema de transportes que foi ampliado e modernizado. Os recursos que seriam aplicados no viaduto foram investidos, em ciclovias, saneamento básico e recuperação urbana, sobretudo das áreas de pedestres.
Distribuidora de energia do Rio de Janeiro, a Light diz que vai investir em ônibus elétricos. Em entrevista ao jornal O Globo, de 04 de agosto de 2008, José Luiz Alquéres, presidente da Light, explica que o negócio da empresa agora não é vender energia, mas o uso racional dela.
Ele diz que mesmo que possa ser mais caro, os benefícios compensarão o custo. “Se você levar em conta que 40% do consumo global de energia são gastos pelo setor de transporte, uma orientação neste sentido é algo de grande interesse ambiental. É claro que é mais caro, mas hoje a população tem de escolher. Ela paga um preço enorme em congestionamentos, doenças respiratórias, irritação, perda de tempo. Com os veículos elétricos as viagens levarão menos tempo, haverá menor pressão sobre os serviços médicos”.