No final dos anos de 1980, o mundo começou a demonstrar descrença na visão de desenvolvimento centrado quase que exclusivamente no crescimento econômico. A economia mundial se ressentia do que acabaria por ser chamada de “década perdida”, marcada por elevação da concentração de renda e por fluxos financeiros mundiais cada vez mais soltos. Ou seja, países que haviam apresentado um grande incremento na economia, ao longo da década anterior, continuavam com desigualdades sociais – o Brasil foi um deles. O mundo também vivia a derrocada do socialismo, que provocava alterações na configuração geopolítica do planeta, com o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos e a, então, União Soviética.
Estudiosos do tema passaram a advogar a tese de que, para além da economia, seria preciso investir também em questões sociais. Dessa forma, o grau de desenvolvimento de uma sociedade seria dependente não só de suas variáveis econômicas, mas também das sociais. O exemplo mais clássico dessa dicotomia entre desenvolvimento econômico e social pode ser encontrado em países que investem na produção de petróleo.
De maneira geral, eles crescem a taxas elevadas e têm a renda per capita alta, entretanto a população é extremamente pobre, porque não há investimentos sociais. A Nigéria, por exemplo, é o país africano que mais produz petróleo, entretanto possui índices sociais extremamente graves: cerca de 75% da sua população está abaixo da linha da pobreza, e o país se encontra entre os 30 do mundo com os mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano. Uma clara mostra de que o crescimento econômico não representou investimento social.
O desenvolvimento social seria, portanto, aquele no qual os tomadores de decisão optam por estratégias de ação essencialmente voltadas para a área social até mesmo quando o “bolo” econômico não está em seus picos de crescimento. Em outras palavras, o que se defende são políticas que independentes do desenvolvimento econômico investem primeiramente na melhoria da vida das pessoas.
Isso não quer dizer que um bom desempenho da economia não tenha impacto positivo nos avanços sociais. Não se está defendendo que a economia possa ficar desgovernada, sem que isso venha a interferir de forma extremamente negativa no contexto social. O que se quer sublinhar aqui é que, em determinados casos, a utilização mais racional dos (poucos) recursos disponíveis pode colaborar enormemente para o avanço social.
No bojo da consolidação dessa nova concepção de desenvolvimento, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento lançava, em 1990, o seu primeiro Relatório do Desenvolvimento Humano.
O desenvolvimento em geral é assunto praticamente ausente da pauta da imprensa brasileira. Quando aparece, a discussão do crescimento/desenvolvimento econômico supera largamente a discussão sobre o desenvolvimento humano.
| Estratégia de desenvolvimento mencionada em 997 matérias sobre mudanças climáticas veiculadas pela imprensa brasileira entre 2005 e 2007 | % |
| Desenvolvimento Sustentável | 9,1 |
| Crescimento Econômico | 2,6 |
| Desenvolvimento Econômico | 1,2 |
| Desenvolvimento Humano | 0,1 |
| Desenvolvimento Social | 0,1 |
| Não menciona estratégia de desenvolvimento | 86,9 |
| Total | 100,0 |
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
A idéia é a de que o sucesso do desenvolvimento deve ser medido pela competência em transformar a riqueza de um país em qualidade de vida para seus cidadãos, com a redução das desigualdades sociais. E isso não só em termos de desigualdade de renda, mas também em relação a outros direitos.
A partir do conceito de “desenvolvimento humano” (um processo de expansão das escolhas humanas e da qualidade de vida), o PIB deixou de funcionar como uma medida exata das conquistas de desenvolvimento de uma nação – era esse o indicador usado para mensurar o sucesso de um país quando a idéia de desenvolvimento era restrita ao crescimento econômico.
Diante dessa necessidade, o economista indiano Amartya Sen e sua equipe desenvolveram, então, o que se tornou a parte mais palpável dessa nova maneira de encarar o desenvolvimento: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Esse método de análise focaliza, além do PIB per capita, a expectativa de vida e a educação. Ao considerar a efetiva condição de vida das pessoas, o IDH oferece subsídios para os tomadores de decisão identificarem desigualdades e desenvolverem políticas públicas que não tenham apenas a renda como essência. Amartya Sen ganhou, em 1998, o Prêmio Nobel de Economia.
É imprescindível ter em mente, porém, que o conceito de desenvolvimento humano não é sinônimo do IDH. O índice não abarca toda a complexidade da questão. Ele é um resumo do conceito e reflete apenas três variáveis do DH (renda, expectativa de vida, educação). Já o desenvolvimento humano é bem mais amplo e leva em consideração outras variáveis, de cunho político, social, cultural e ambiental (democracia, sustentabilidade ambiental, direitos políticos, civis e sociais são algumas delas). Em 1999, o próprio Amartya Sen publicaria importante obra onde reflete sobre a busca de maneiras de mensurar o aspecto “liberdade” “Ter mais liberdade melhora o potencial das pessoas para cuidar de si mesmas e para influenciar o mundo, questões centrais para o processo de desenvolvimento”, afirma.
Ao discutirem as mudanças climáticas, os jornais brasileiros não relacionam o tema com o Índice de Desenvolvimento Humano. Apenas 0,2% da amostra total de matérias analisadas em 50 veículos de mídia impressa do Brasil, entre 2005 e 2007, faz referência ao IDH.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
Assim, em linhas gerais, pode-se dizer que a concepção de Desenvolvimento Humano é a de que a razão do desenvolvimento é o ser humano que o gera. Nesse sentido, o processo de consolidação desse novo paradigma – inclusive as políticas desenvolvimentistas – deveria levar em consideração três atributos básicos:
Diante disso, há duas qualidades indissociáveis do desenvolvimento: ser eqüitativo e sustentável. Ambas manifestam-se na forma como se dá sua construção e na distribuição de seus resultados entre a presente e as futuras gerações. Logo, a sustentabilidade do desenvolvimento é política, social, cultural, econômica e, não menos importante, ambiental – entendendo-se por ambiente os serviços e os recursos naturais que dão suporte ao processo do Desenvolvimento Humano, no presente e também no futuro.