Para além da discussão política, também está em debate o papel da sociedade e seu modelo de vida. Afinal, a transição para um novo modelo econômico implica também na alteração dos padrões de consumo.
Nesse sentido, vale destacar que o pensamento tradicional considera que o padrão de vida das populações pode ser medido pela quantidade de bens e serviços que podem ser adquiridos com a renda nacional média, ou seja, pelo Produto Interno Bruto per capita. De forma que qualquer aumento no nível desse indicador é considerado uma conseqüência lógica do desenvolvimento econômico. Assim, a perseguição pelo crescimento do PIB virou uma corrida “pelo bem estar das sociedades” e o crescimento econômico, mesmo sem levar em conta a questão ambiental, passou a ser visto como a solução para os problemas de toda e qualquer nação.
No Brasil, foi escolhido um modelo conhecido como trickle down, que, de forma simplificada, poderia ser traduzida como a popular expressão “fazer o bolo crescer para depois reparti-lo”.Como diz a economista Henzel Henderson, esse modelo apregoa que precisamos de grandes bancos e de wall street para salvar o mundo. Porém, espera-se que de fato o mundo esteja vivendo o início de uma grande oportunidade de perceber que dinheiro não é riqueza, mas um sistema para medir valores. Ele apenas acompanha a riqueza real. Nesse sentido, essa riqueza seria o capital humano.
Foram os processos de produção e consumo orientadores do sistema de desenvolvimento dominante e a idéia de progresso como sinônimo de crescimento econômico que levaram o planeta a uma situação na qual pode ser gerada uma alteração irreversível no clima, com conseqüências físicas, econômicas e sociais para todos os países. Pelo menos, é o que pensam aqueles que não hesitam em atribuir boa parte do problema à atividade humana.
* Mais sobre as consequências das mudanças climáticas na seção Impactos globais [1]
Inserir a discussão sobre o fenômeno das mudanças climáticas em um contexto de questionamento do modelo de desenvolvimento das nações e do mundo como um todo é lidar com o tema sem limitar a pauta às soluções para abrandar o problema, como, por exemplo, o aumento da produção de energias renováveis ou as reduções da emissão de carbono. É factível redefinirmos a matriz energética do planeta se os níveis de consumo continuarem os mesmos? Quem terá acesso à energia?
Nas matérias sobre mudanças do clima e/ou aquecimento global, cerca de 13% dos textos publicados em 50 jornais brasileiros, entre julho de 2005 e junho de 2007, mencionaram alguma reflexão sobre modelo de desenvolvimento. A idéia de progresso das nações é ainda menos discutida, aparecendo em apenas 2,2% das notícias.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
O que está em jogo, de fato, é a disposição das sociedades em reduzir e alterar drasticamente a forma de consumo, redefinir o modelo de produção e a idéia mesmo de desenvolvimento; e, em passar a medir o êxito de um país por seus indicadores sociais e ambientais, e não mais apenas por sua riqueza financeira.
Para uma compreensão mais abrangente sobre a intersecção entre essas duas agendas – desenvolvimento e mudanças climáticas –, já observada na seção A agenda climática [2], é interessante conhecer os parâmetros gerais do debate atual sobre os modelos de desenvolvimento.
Durante muito tempo, a idéia de desenvolvimento esteve vinculada à noção de crescimento econômico, representado fundamentalmente como aumento da renda per capita e do Produto Interno Bruto de um país, além dos graus de industrialização e de avanço tecnológico. Estudiosos atribuem a origem dessa idéia ao presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman (1884 -1972). Em seu discurso de posse, em 20 de janeiro de 1949, ele teria lançado as bases do que viria a ser chamada de “Era do Desenvolvimento”.
Com o mundo do pós-guerra já dividido entre forças antagônicas e com o modelo colonialista tradicional ruindo – principalmente devido à independência das até então colônias européias na África e a separação da Índia do Reino Unido –, ele teria classificado os países como “desenvolvidos” ou “subdesenvolvidos”.
A partir de então, o desenvolvimento passou a ser uma tentativa de convencer os Estados Nacionais a adotarem modelos de crescimento econômico que os elevariam ao status de desenvolvidos. Foram incentivados os processos de urbanização, industrialização e crescimento nos padrões de consumo, a partir de políticas públicas de criação de infra-estrutura, educação para todas as crianças, incentivos ao lucro e ao comércio, expansão do conhecimento, aplicação de novas tecnologias, políticas demográficas e poupanças individual e nacional.
Estava em voga a idéia, expressa por Truman, de “ajudar” as populações das áreas economicamente subdesenvolvidas a elevarem seus padrões de vida. Segundo o economista francês Serge Latouche, o padrão de vida pode ser medido pela quantidade de bens e serviços que podem ser adquiridos com a renda nacional média. A principal medida desse padrão, segundo artigo de Latouche publicado no Dicionário do Desenvolvimento, era o Produto Interno Bruto per capita. “Qualquer aumento no nível desse indicador é considerado uma conseqüência lógica do desenvolvimento econômico”, afirma.
Ainda que a perspectiva econômico-financeira tenha um expressivo destaque nos jornais diários quando tratam das mudanças climáticas – aparecendo em 19,7% do conteúdo pesquisado, entre 2005 e 2007, apenas 2,2% dos textos relacionaram o tema com os impactos no Produto Interno Bruto das nações.
Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.
Assim, esse modelo de desenvolvimento ganhou força nas décadas seguintes, baseado especialmente no fato de indicadores demonstrarem melhorias no padrão de vida de países subdesenvolvidos à medida que eles iam crescendo economicamente. Tais avanços foram interpretados como conseqüência do crescimento do PIB, e por essa razão o crescimento econômico passou a ser visto como a solução para os problemas de toda e qualquer nação.
Em alguns países subdesenvolvidos, como o Brasil, optou-se, principalmente a partir de meados dos anos de 1970, por um modelo conhecido na economia como trickle down, uma receita que de maneira hiper-simplificada poderia ser traduzida como a popular expressão “fazer o bolo crescer para depois reparti-lo” (expressão utilizada na década de 1970 pelo então ministro brasileiro da Fazenda, Delfim Neto, quando questionado sobre o que fazer para diminuir o abismo entre ricos e pobres no quadro da distribuição de renda do país).
Links:
[1] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/143
[2] http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/node/88