Um cardápio de propostas
O relatório O Estado do Mundo, produzido pelo Worldwatch Institute, traz uma importante contribuição para o debate sobre um novo modelo de desenvolvimento. Na edição de 2008, o documento relata os desafios que confrontam a humanidade e o meio ambiente, bem como avanços que o mundo obteve ao responder a eles. Além disso, aborda as inovações necessárias para uma economia sustentável.
Em entrevista publicada na revista Idéia Socioambiental, de julho de 2008, Eduardo Athayde, diretor do WWI no Brasil, destacou avanços rumo à economia sustentável. “Quando há 25 anos iniciaram a produção da série de relatórios O Estado do Mundo, os pesquisadores do Worldwatch Institute acreditavam que uma economia sustentável era possível, mas só podiam descrevê-la de forma abstrata. Hoje, já há indícios de mudanças e os pesquisadores têm condições de demonstrar como funcionará a nova economia”, explica.
A revista Idéia Socioambiental selecionou algumas das principais iniciativas propostas pelo relatório:
1) Mudança comportamental
A construção de uma economia sustentável passa pela revisão e mudança de comportamentos, pois nenhuma capacidade tecnológica pode acompanhar as aspirações e o crescimento da população. Para se ter uma idéia, se todos no planeta adotassem o estilo de vida norte-americano, a emissão anual de CO2 no mundo seria de 125 gigatons até a metade do século, quase cinco vezes o nível atual. CO2
Mas por que as pessoas continuam a consumir? Por que não ganhar menos, gastar menos e ter mais tempo para os amigos e para a família? Esses são alguns dos questionamentos apresentados no relatório. “Precisamos fazer mudanças pessoais envolvendo tudo, desde o uso maior da bicicleta e menor do automóvel, até a reciclagem dos nossos jornais diários. Porém, isso não seria suficiente. Temos que alterar o sistema. E, para fazê-lo, necessitamos de uma reforma fiscal (reduzindo impostos sobre a renda e aumentando impostos sobre atividades ambientalmente destrutivas), desse modo os preços refletirão a verdade ecológica”, defende.
2) Reestruturação da economia
Ainda segundo o documento da WWI, quando uma atividade cria o temor de sérios ou irreversíveis danos ao meio ambiente ou à saúde humana, medidas de precaução devem ser tomadas mesmo se a relação de causa-efeito não estiver completamente estabelecida cientificamente. Um governo pode, por exemplo, criar um mecanismo que minimize o dano ou compense as vítimas. Uma companhia que deseja introduzir um novo produto no mercado seria intimada a depositar uma soma apropriada, com base na melhor estimativa de futuros danos potenciais. O dinheiro circularia oferecendo suporte a outras atividades econômicas, exatamente como os fundos de depósito fazem, e seria devolvido (com juros) no momento em que empresa mostrasse que o dano não ocorreu ou foi menos severo do que o estimado.
3) Negócios da natureza
Segundo o relatório, a incorporação dos ecossistemas à economia também pode apresentar novas oportunidades de negócio. A cientista natural norte-americana Janine Benyus, autora do livro Biomimicry, destaca que a natureza oferece um amplo leque de produtos e serviços, normalmente não considerados pelos fabricantes e empresas. A disciplina da “biomimicry” propõe exatamente a criação de design e processos para resolver problemas humanos inspirados nos modos como funcionam os sistemas da natureza.
4) Novos parâmetros
Para caracterizar a nova economia sustentável, os pesquisadores têm recorrido ao geógrafo e consultor em sustentabilidade norte-americano Andres Edwards. O autor do livro Revolução Sustentável relaciona sete parâmetros necessários a todas as estruturas na transição para o desenvolvimento sustentável. São eles:
- administração
- respeito pelos limites
- interdependência
- reestruturação econômica
- distribuição justa
- perspectiva “intergeracional” (decisões tomadas com base nos impactos para as gerações atuais e futuras) e
- natureza como modelo e professor
Com base nessas premissas, estabelece os objetivos macro e microeconômicos necessários ao desenvolvimento sustentável. Essa mudança também requer que as medidas de averiguação do progresso incluam as melhorias no bem-estar das pessoas, não mais baseando-se unicamente na expansão da escala e atividade do mercado econômico. Nesse cenário, sistemas tradicionais de medida, como o PIB (Produto Interno Bruto), tornam-se insuficientes.
5 ) Descarbonização da economia
O relatório ressalta que o desenvolvimento de uma economia com menos carbono, um dos desafios do século 21, requer a reestruturação da indústria de energia global por meio de novas tecnologias, economia modificada e políticas inovadoras. Para que as emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa sejam reduzidas à metade até 2050, os países industriais precisarão cortar suas emissões em 80%. Nesse sentido, o grande desafio está em adotar a energia renovável e colocá-la em um sistema que foi projetado em torno de combustíveis fósseis. A transição de uma tecnologia para outra será gradual. Após uma fase inicial, espera-se um avanço rápido das vantagens econômicas das energias renováveis.

















