Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014 - 04:45
Diagnósticos da crise / A agenda climática / >>

Conferência de Estolcomo: primeiros passos e longe do consenso

Dois pontos essenciais debatidos na Conferência de Estolclomo reforçavam as animosidades e conflitos existentes entre as nações “desenvolvidas” e “em desenvolvimento”: o controle populacional e a necessidade de redução do crescimento econômico. Como explica Amália Maria Goldberg Godoy, professora associada do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá, Paraná (UEM), dois documentos nortearam as discussões.

O primeiro continha as conclusões do Relatório do Clube de Roma. O segundo, e não menos importante, foi o documento-base para a Conferência de Estocolmo denominado Only one Earth: the care and maintenance of a small planet (Apenas uma Terra: o cuidado e a manutenção de um pequeno planeta), de responsabilidade de Bárbara Ward e René Dubos, da ONU. “A produção do documento reuniu 70 especialistas, que reforçavam, em grande parte, as conclusões do Relatório do Clube de Roma. Por conseqüência, os debates giraram em torno dessas questões”, explica a professora.

O clima na imprensa

As discussões em Estocolcomo salientavam, já em 1972, a importância de se refletir sobre os interesses, por vezes antagônicos, que circunscrevem muitas das temáticas relacionadas à agenda do desenvolvimento.

Na maioria dos textos jornalísticos sobre mudanças climáticas publicados entre 2005 e 2007 (92% de amostra analisada) omite-se o debate acerca dos multifacetados interesses vinculados ao tema.

Fonte: Pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira. ANDI e Embaixada Britânica.

Esses dois tópicos foram objeto de contestação por parte dos países em desenvolvimento, que viam na postura neo-malthusiana do Relatório do Clube de Roma, no documento-base da Conferência e entre os ambientalistas (o Greenpeace fora criado em 1971), um movimento de ampliação da subordinação internacional dos países subdesenvolvidos aos países desenvolvidos.

“Como resultado dessa resistência, foram incluídos na declaração vários capítulos que tentavam/buscavam resguardar a soberania dos países sobre seus territórios e os recursos naturais e também sobre sua necessidade e liberdade de alcançar o desenvolvimento”, diz a professora Amália Maria Goldberg. Naquele momento, portanto, adotou-se uma postura, no mínimo temerária, de avançar na discussão dos problemas ambientais sem necessariamente vinculá-la ao aprofundamento das reflexões sobre os modelos de desenvolvimento. Em outras palavras, é como se fosse possível trabalhar as conseqüências sem intervir nas causas – o que, no longo prazo, tende ao fracasso.


Participação brasileira

De acordo com Paulo Moutinho, coordenador do programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam), a participação do Brasil em Estocolmo foi pequena. “Na sociedade brasileira, os resultados de Estocolmo passaram despercebidos. E por um simples motivo: os problemas ambientais continuavam sendo sempre aqueles que aconteciam numa escala local (no quintal de nossas casas, por assim dizer) e estavam geralmente relacionados com a poluição do ar ou com o lixo nas cidades. E isto é bem compreensível. Ainda hoje, a percepção da sociedade, não somente a brasileira, sobre os problemas ambientais tem sido aquela relativa aos impactos sentidos localmente”, destaca.