Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010 - 22:14
Críticas e contrapontos / Visões discrepantes / >>

Dois lados da moeda

Como ressaltado anteriormente, a ANDI reconhece que as evidências científicas que apontam para a ocorrência de mudanças climáticas de contundentes proporções – que, por sua vez, salientam a responsabilidade de fatores humanos na ocorrência dessas alterações e que nos alertam para as prováveis conseqüências das alterações climáticas – são, para nos valermos da expressão do economista britânico Nicholas Stern, “avassaladoras”. Ainda assim, relembramos que é inerente ao trabalho jornalístico a tarefa de dar voz aos que contra-argumentam e, mais importante do que isso, é inerente à atividade investigar as dúvidas seriamente levantadas.

Diante disso, são inúmeras as possibilidades de divergências em uma discussão das proporções adquiridas pelo debate das mudanças climáticas. O site Skeptical Science, por exemplo, alinhavou 53 contrapontos somente em relação à ciência do clima.

Poderíamos organizar os variados contrapontos e críticas sob alguns grandes "guarda-chuvas":

  1. Dúvidas quanto à existência de evidências científicas que demonstrem que o planeta está aquecendo para além do esperado, ou seja, questionamentos quanto à própria existência das mudanças climáticas.
  2. Entre aqueles que aceitam que as mudanças climáticas estão em curso, há os que levantam interrogações quanto às dimensões do aquecimento (ele estaria ocorrendo, mas não seria tão assustador quanto sustenta, por exemplo, o IPCC).
  3. Algumas vozes debatem a metodologia que é adotada pelo IPCC e pelos cientistas que produzem as pesquisas analisadas pelo Painel. Suspeitam tanto da validade de se sustentar parte das conclusões em modelos de computador quanto do fato de os sumários para tomadores de decisão serem revisados, linha por linha, pelos representantes dos países que compõem o órgão. Adicionalmente, há críticas quanto à pertinência de se comparar temperaturas obtidas por meio de testemunhos de gelo com aquelas medidas tomadas por observação direta. Outros ainda criticam até mesmo esta última forma de pesquisa, isso porque a maioria dos centros de medição estariam nos países desenvolvidos, dificultando a produção de médias globais.
  4. Um outro bloco de divergência, talvez um dos mais polêmicos, está na suspeita quanto às causas das mudanças climáticas. Parcela dos cientistas (minoritária é verdade) sustenta que as causas antropogênicas são pouco significativas e que o papel desempenhado pelo Sol nas alterações climáticas é muitas vezes mais significativo, por exemplo.
  5. Mais divergências são encontradas quando o assunto refere-se às reais conseqüências das mudanças climáticas. Há atores, por exemplo, que defendem que o aquecimento poderia até ser benigno.
  6. Há questionamentos, muitos advindos de outros setores que não a Ciência do Clima, a respeito dos tipos de soluções propostas. Devemos, por exemplo, nos focalizar na adoção de mecanismos de mercado ou no estabelecimento de regulações estatais? As soluções na linha da Responsabilidade Social Corporativa funcionam?
  7. Um conjunto adicional de questionamentos, estes bem mais recentes, vem sendo feito às conseqüências das soluções que já vêm sendo implementadas, como, por exemplo, as dúvidas quanto a impactos econômicos nocivos para as economias que adotaram o Protocolo de Quioto.
  8. Do ponto de vista das disputas entre as nações, estamos diante de contundentes divergências quanto às responsabilidades diferenciadas dos países no enfrentamento da questão. De um lado, os países em desenvolvimento querem carregar pouco ou nenhum fardo e, de outro, muitos dos desenvolvidos entendem que é necessário que também os países emergentes assumam metas de redução dos gases do efeito estufa.
  9. Há inúmeros questionamentos em relação à pertinência de se alçar a agenda das mudanças climáticas para o topo da lista de prioridades mundiais. Alguns atores defendem que o investimento em outras áreas, tais como a redução da pobreza, deveria estar no centro das atenções dos tomadores de decisão.
     

Esta seção não tem a finalidade de dissecar cada um desses grandes "guarda-chuvas" de divergência. O intuito é somente apresentar alguns caminhos por meio dos quais o profissional da notícia pode se aprofundar nesse emaranhado de divergências. Convém assinalar que, ao longo das distintas seções deste portal, aparecem divergências particulares em torno de cada um dos temas abordados por elas.

O quadro a seguir, reproduzido a partir do sítio da BBC, sumariza os 10 principais contrapontos em relação, fundamentalmente, à ciência do clima e as respostas que vêm sendo divulgadas para rebatê-los.

As principais oposições às mudanças climáticas e seus contrapontos:
 
1. As evidências de que a temperatura da Terra está aumentando são incertas.
Visão dos céticos Contrapontos
Os instrumentos mostram que a superfície da Terra está aquecendo desde 1979, mas o valor real está sujeito a vários erros. A maior parte dos dados de longo prazo vem de estações meteorológicas na superfície. Muitas delas ficam em centros urbanos que se expandiram tanto em tamanho quanto no uso de energia. Quando essas estações observam um aumento de temperatura, elas estão simplesmente medindo as “ilhas de calor de efeito urbano”. Além disso, a cobertura é irregular. Algumas regiões do mundo são quase desprovidas de instrumentos de avaliação meteorológica. Dados adicionais de um século ou dois são derivados de indicadores “proxy” – como os troncos de árvore e os estalactites – que mais uma vez estão sujeitos a grandes erros. O aquecimento é inequívoco. Estações climáticas, medições dos oceanos, diminuições na cobertura de neve, reduções no gelo do oceano Ártico, longos períodos de crescimento, medições de balões e satélites: todos mostram resultados consistentes com um recorde de aquecimento da superfície. Os efeitos das ilhas de calor urbanas são reais, mas pequenos e tal efeito tem sido estudado e corrigido. Análises da Nasa, por exemplo, usam apenas estações rurais para calcular tendências. Recentemente, um trabalho mostrou que se o aumento da temperatura global for analisado em longo prazo em dias de vento e em dias calmos, separadamente, não haverá diferenças no resultado. Se o efeito das ilhas de calor fosse significativo, seria esperada maior tendência nos dias calmos, quando a maior parte do calor permanece na cidade. Além disso, o padrão do aquecimento global não se assemelha ao padrão de urbanização, com o maior aquecimento acontecendo no Ártico e nas altas latitudes do norte. Globalmente, há uma tendência de aquecimento de 0,8°C desde 1900. Mais da metade ocorreu desde 1979.
2. Se a temperatura média estava subindo, agora parou.
Visão dos céticos Contrapontos
Desde 1998 – há uma década – os registros, como foi determinado por observações de satélites e balões de radiossondas, não mostram nenhum aquecimento. 1998 foi um ano excepcionalmente quente devido ao fenômeno El Niño. Uma variabilidade ano a ano é esperada, e a seleção de um ano especificamente quente é uma escolha dirigida. Se o período escolhido fosse 1997 ou 1999, seria possível verificar um crescimento mais agudo. Mesmo assim, a tendência linear desde 1998 continua positiva.
3. A Terra já foi mais quente em um passado recente.
Visão dos céticos Contrapontos
O começo do último milênio viu um “Quente Período Medieval" (MWP, na sigla em inglês), quando temperaturas, certamente na Europa, foram maiores do que são agora. Uvas cresceram no norte da Inglaterra. O Ártico se aqueceu nos anos 30 da mesma forma que hoje. Houve muitos períodos na história da Terra que foram mais quentes do que hoje – se não o MWP, talvez o último período interglacial (há 125.000 anos atrás) ou o pliocênico (três milhões de anos atrás). Se essas variações foram causadas por força solar, instabilidade da órbita da Terra ou as configurações continentais, nenhuma dessas causas se aplicam hoje. Evidências de um período de aquecimento medieval fora da Europa são desiguais, na melhor das hipóteses, e muitas vezes não são contemporâneas ao aquecimento do continente europeu. Como coloca a National Oceanographic and Atmospheric Administration (Noaa) dos EUA: “A idéia de um Período de Aquecimento Medieval global ou hemisférico mais quente do que a atualidade se tornou incorreta”. Além disso, embora o Ártico de fato estivesse mais quente na década de 30 do que nas décadas seguintes, agora o aquecimento é maior ainda.
4. Modelos de computador não são confiáveis.
Visão dos céticos Contrapontos
Os modelos de computador são a principal forma de previsão das mudanças climáticas. Porém, apesar de décadas de desenvolvimento, eles são incapazes de modelar todo o processo envolvido, como a influência das nuvens, a distribuição do vapor de água, o impacto da água quente dos oceanos em geleiras e a resposta das plantas às alterações no suprimento de água. Modelos climáticos seguem a velha máxima do “garbage in, garbage out” (se o que entra é lixo, o que sai é lixo – quando uma informação é manipulada de forma errada, o resultado também será errado). Os modelos são simplesmente formas de quantificar a compreensão do clima. Eles nunca serão perfeitos nem capazes de prever o futuro com exatidão. Entretanto, são testados e validados contra todos os tipos de dados. Ao longo dos últimos 20 anos, eles se tornaram capazes de simular mais processos físicos, químicos e biológicos e de trabalhar em pequenas escalas espaciais. O relatório do IPCC de 2007 reproduziu projeções climáticas regionais em um nível de detalhamento impossível de ser feito em 2001. Além disso, todos os robustos resultados desses modelos têm suporte tanto teórico quanto empírico.
5. A atmosfera não está se comportando como os modelos previram.
Visão dos céticos Contrapontos
Os modelos de computador previram que a camada mais baixa da atmosfera deveria se aquecer mais rápido do que a superfície da Terra. As medições mostram o oposto. Portanto, ou isso é uma falha dos modelos ou um conjunto de medições falhou ou, ainda, há lacunas em nosso entendimento da ciência. Os níveis mais baixos da troposfera estão se aquecendo, mas medir taxa exata de tal aquecimento tem sido um processo incerto, particularmente na era do satélite (desde 1979). Leituras de satélites diferentes precisam ser interligadas, e cada um tem seus próprios problemas com as mudanças de órbita e flutuação em seus sensores. Duas análises realizadas separadamente mostram um aquecimento consistente, um mais rápido do que a superfície e o outro um pouco menos. Dentro das incertezas dos dados não há nenhuma discrepância que precise ser tratada. Informações oriundas de balões têm seus próprios problemas, mas o IPCC concluiu, neste ano, que “para o período desde 1958, o aquecimento troposférico global e tropical estimado pelas radiossondas excedeu ligeiramente o aquecimento da superfície”.
6. O clima é influenciado principalmente pelo sol.
Visão dos céticos Contrapontos
A história da Terra mostra que as alterações climáticas geralmente responderam às mudanças cíclicas na incidência da energia solar. Qualquer aquecimento perceptível pode ser atribuído principalmente às variações do campo magnético do sol e aos ventos solares. Variações solares de fato afetam o clima, mas não são o único fator. Como houve tendência positiva no índice solar desde 1960 (possivelmente houve uma pequena tendência negativa), as forças solares não podem ser responsáveis pelos recentes aumentos de temperatura. As diferenças entre o mínimo solar e o máximo solar nos últimos 11 anos de ciclos solares são 10 vezes menores do que os impactos de gases de efeito estufa no mesmo intervalo de tempo.
7. O aumento do dióxido de carbono sempre ocorreu após uma elevação da temperatura, não antes dela.
Visão dos céticos Contrapontos
Testemunhos de gelo que remontam há quase um milhão de anos mostram um padrão de aumento de temperatura e de CO2 a cada cem mil anos. Entretanto, o crescimento da concentração de CO2 sempre veio depois do aumento de temperatura, não antes – presumidamente quando as temperaturas mais quentes liberaram o gás dos oceanos. Isso é verdade, mas irrelevante. Antigos testemunhos de gelo realmente mostram que o CO2 aumentou depois da elevação das temperaturas por cerca de algumas centenas de anos – uma escala de tempo associada à resposta dos oceanos às mudanças atmosféricas especialmente impulsionadas por irregularidades na órbita da Terra. Entretanto, a situação hoje é dramaticamente diferente. O CO2 extra na atmosfera (aumento de 35% em relação aos níveis pré-industriais) tem origem nas emissões humanas. Os níveis são maiores do que os vêm sendo registrados em 650.000 anos de testemunhos de gelo e, possivelmente, são maiores do que em qualquer outra época desde três milhões de anos atrás.
8. Os dados de longo prazo sobre furacões e gelo ártico são demasiado fracos para estabelecer tendências.
Visão dos céticos Contrapontos
Antes do início da era da observação por satélite, na década de 1970, as medições do clima eram ad hoc e casuais. Os furacões eram relatados apenas se atingissem a terra ou embarcações. A extensão do gelo ártico somente era medida em expedições. Os registros desses fenômenos via satélite são demasiado curtos para justificar alegações de que furacões são cada vez mais fortes ou mais freqüentes ou, ainda, de que há algo excepcional na aparente retração no gelo do Ártico. O projeto Arctic Climate Impact Assessment (Avaliação dos Impactos Climáticos no Ártico) afirma que as coletas sistemáticas de dados em partes do Ártico começaram no final do século 18. O Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos notou que a verificação organizada de tempestades no Atlântico teve início em 1944. Dessa forma, mesmo que os dados históricos não sejam tão completos quanto devessem, é possível tirar conclusões. E o IPCC não afirma que o aquecimento global vai tornar os furacões mais freqüentes – o relatório de 2007 diz que eles poderão vir a se tornar menos freqüentes, porém mais intensos.
9. O vapor de água é o principal gás de efeito estufa. O CO2 é relativamente pouco importante.
Visão dos céticos Contrapontos
O efeito estufa natural mantém a superfície da Terra em uma temperatura 33°C superior ao que seria sem tal fenômeno. O vapor de água é o gás de efeito estufa mais importante, contribuindo com cerca de 98% de todo o aquecimento. Portanto, mudanças na concentração do dióxido de carbono e do metano têm impactos relativamente pequenos. A concentração de vapor de água está aumentando, mas isso não aumenta necessariamente o aquecimento – isso depende de como é o vapor de água. O vapor de água é essencial para o equilíbrio da temperatura do planeta numa escala anual ou pouco maior, enquanto que traços de gases de efeito estufa, como o CO2, ficam na atmosfera em uma escala de tempo de décadas a séculos. A afirmação de que o vapor de água é "98% do efeito estufa" é simplesmente falsa. Na verdade, ele responde por cerca de 50% do fenômeno. As nuvens acrescentam outros 25% e o CO2 e outros gases de efeito estufa contribuem com o restante. As concentrações de vapores de água estão subindo em resposta aos aumentos de temperatura, e há indícios de que isso está se somando ao aquecimento na Europa, por exemplo. O fato de que o vapor de água é um feedback está incluído em todos os modelos climáticos.
10. Problemas como o HIV, a aids e a pobreza exigem mais ações do que as alterações climáticas.
Visão dos céticos Contrapontos
O Protocolo de Quioto não vai reduzir notadamente as emissões de gases de efeito estufa noticiadas. As metas foram muito baixas, pois só foram aplicadas a certos países e se tornaram sem sentido devido a falhas no mecanismo. Muitos governos que se entusiasmaram com o tratado não irão atingir as metas estabelecidas. Mesmo que seja verdade o fato de que as mudanças climáticas são causadas pelo ser humano, este é apenas um entre os muitos problemas que atingem os pobres e os ricos da mesma forma. Os governos e as sociedades devem responder proporcionalmente, não fingindo que o clima é um caso especial. Argumentos sobre o Protocolo de Quioto estão fora do domínio da ciência, embora certamente o documento não irá reduzir as emissões de gases tão rápido quanto o IPCC indica que seja necessário. O mais recente relatório do Grupo de Trabalho 2 do IPCC sugere que o impacto das alterações climáticas provocadas pelo homem em geral será deletério, particularmente para os países pobres dos trópicos, embora regiões frias possam ter vantagens como o aumento das colheitas. Investimentos em eficiência energética, em novas tecnologias energéticas e energias renováveis poderão vir a beneficiar o mundo em desenvolvimento.
* Compilado com autorização de Fred Singer and Gavin Schmidt para o site da BBC. Traduzido e adaptado pela ANDI