Sexta-feira, 12 de Março de 2010 - 10:44
O papel da imprensa / A cobertura no Brasil

Agendando o debate

No seminal artigo “The agenda-setting function of mass media” (A função de agendamento da comunicação de massa), publicado em 1971 na revista Public Opinion Quarterly, os pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw apresentaram sua hipótese, que viria a ser amplamente discutida entre os estudos de mídia: “Os meios de comunicação de massa pautam a agenda de cada campanha política, influenciando a contundência das atitudes em relação a questões políticas”. Os autores basearam sua teoria em Bernard Cohen, que afirmara:

A imprensa pode até não ser exitosa a maior parte do tempo em dizer às pessoas o que pensar, mas ela é impressionantemente bem-sucedida em dizer a seus leitores sobre o que pensar.

O pensamento resume a idéia básica acerca da capacidade da imprensa de colaborar fortemente na construção ou seleção, a partir daquilo que ela veicula e/ou omite, dos temas que estarão no topo da lista de prioridades da população em geral e, mais especificamente, dos tomadores de decisão.

Essa abordagem propõe-se a analisar, portanto, como a mídia contribui para moldar o processo político por meio do agendamento das questões que passam a ser consideradas relevantes pelo público em suas decisões políticas e eleitorais. O objeto de estudo da agenda setting, com o passar do tempo, se expandiu para além da relação imprensa e política. Os conceitos que vieram a embasar esse tipo de pesquisa também contribuíram para análises sobre a influência da imprensa, no debate dos temas da agenda social e ambiental.

Fundamenta essa abordagem, vale ressaltar, a constatação de que, com a rápida expansão das possíveis áreas de interferência do Estado – em muito relacionada com o reconhecimento de diferentes ordens de direitos aos cidadãos e às gerações futuras –, foi se tornando cada vez mais urgente para a sociedade a necessidade de priorizar apenas algumas das demandas que são cotidianamente colocadas na esfera pública.

Estamos, portanto, assumindo que a mídia tem um poder central nas democracias contemporâneas: definir a agenda pública. A hipótese (do agenda-setting) que está por detrás disso salienta:

[...] em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou ignora, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público tende a atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas.

Os pesquisadores noruegueses Johan Galtung e Mari Holmboe Ruge, no estudo Crises in four Norwegian newspaper: the structure of foreign news: the presentation of the Congo, Cuba and Cyprus (Crises em quatro jornais noruegueses: a estrutura de notícias estrangeiras: a apresentação do Congo, Cuba e Chipre), de 1965, também salientam essa capacidade da mídia, ao reforçar que “a regularidade, a intensidade e a perseverança da mídia noticiosa farão deles [temas quaisquer retratados por ela], em qualquer caso, competidores de primeira hora para a posição número um como formadores da imagem do cenário internacional”.

Os investigadores que se ocuparam especificamente da cobertura jornalística sobre mudanças climáticas igualmente ressaltaram o poder de agendamento da mídia. O já mencionado estudo Balance as bias: global warming and the US prestige press (PDF 378 KB - Baixar Arquivo)afirma que as “pessoas retiram sua informação sobre questões científicas, basicamente da imprensa”.

No estudo Mass communication and public understanding of environmental problems: the case of global warming (Comunicação de massa e a compreensão do público dos problemas ambientais: o caso do aquecimento global), publicado em 2000, os pesquisadores da Universidade de Washington Keith Stamm, Fiona Clark e Paula Reynolds Eblacas constataram que os jornais, para moradores da área metropolitana de Washington, eram as principais fontes de informação sobre o aquecimento global.

Por sua vez, Craig Trumbo, da Universidade de Wisconsin, e James Shanahan, professor de comunicação da Universidade de Cornell, no artigo Social research on climate change: where we have been, where we are, and where we might go (Pesquisa social em mudanças climáticas: onde estávamos, onde estamos, e onde poderemos ir), publicado em 2000, lembram que o público confere mais ou menos importância ao tema do aquecimento global, de acordo com a cobertura.

Mesmo os mais desconfiados analistas do alcance proposto pela teoria do agendamento hão de concordar que, se uma eleição de prioridades será necessária e se um critério ou mais de escolha deverá ser utilizado, a focalização mais intensa da imprensa em um determinado assunto colaborará para sua inclusão privilegiada na pauta da sociedade.

Assim, uma expressiva quantidade de notícias sobre mudanças climáticas, de acordo com a teoria do agendamento, terá como resultado uma maior preocupação dos eleitores e, logo, dos decisores, em relação à questão.


O despertar de uma cobertura

Os números globais da pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira (PDF 1.188 KB - Baixar Arquivo)– 997 textos sobre mudanças climáticas analisados – permitem inferir que a produção média do conjunto de jornais no período foi de uma notícia (editorial, coluna, artigo, entrevista ou notícia) a cada três dias. Ao analisarmos os três últimos trimestres dos anos avaliados, no entanto, a produção cresce para um texto a cada dois dias. Já ao focarmos a avaliação apenas nos diários de abrangência nacional, a freqüência média registrada é bem maior: 1,5 textos a cada dia.

A presença da cobertura nos veículos de abrangência nacional (Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, O Globo e Correio Braziliense) e econômicos (Valor e Gazeta Mercantil) é mais significativa do que aquela encontrada nos jornais regionais, revelando que o tema, de maneira geral, possui um agendamento de caráter mais amplo. Tal resultado demonstra a necessidade de que esse debate também passe a ganhar uma perspectiva local – a ser ofertada pelos diários de capitais fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília (e alguns jornais importantes de eixos econômicos fora das capitais).

Enquanto os 44 jornais de circulação regional contribuíram, na média individual, com 1,46% dos textos veiculados no período, os quatro veículos de alcance nacional, somados aos dois de cunho econômico, contribuíram, também na média individual, com 5,95% do material publicado – ou seja, quatro vezes mais.

A análise do noticiário revela que foi a partir do último trimestre de 2006 que a abordagem sobre as Mudanças Climáticas ganhou expressão nas páginas dos diários brasileiros. Tal tendência guarda relação com eventos marcantes nesse período – lançamento do Relatório Stern, do filme Uma Verdade Inconveniente, dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC, na sigla em inglês) e a ocorrência de fenômenos naturais vistos como prováveis conseqüências das alterações no clima.

À medida que avançamos na análise dos dados, faz-se cada vez mais necessário, no entanto, um olhar acerca de como se dá o agendamento dos temas que compõem o extenso guarda-chuva das mudanças climáticas. Um primeiro elemento relevante consiste em identificar – a partir dos inúmeros subtemas que podem compor a cobertura ampla sobre as alterações climáticas – quais acabaram por ser prioritariamente agendados pela mídia.

Foco central dos textos sobre mudanças climáticas
 
Tema %
Efeito estufa 21,6
Energia 15,8
Conseqüências/impactos da mudança/aquecimento 10,0
Mitigação 7,2
Aquecimento global em geral 6,8
Legislação 4,3
Desmatamento 4,0
Mudança climática em geral 3,6
Ação coletiva internacional 3,1
Pesquisas científicas 2,7
Agricultura 1,9
Desenvolvimento 1,5
Camada de ozônio 1,4
Indústria 1,4
Eventos climáticos extremos/ catástrofes 1,3
Consumo 1,2
Desertificação 1,2
Serviços 1,2
Vítimas do aquecimento global/mudança climática    1,1
Fenômenos naturais 0,9
Causas da mudança/aquecimento 0,8
Questões tecnológicas 0,8
Vulnerabilidades 0,8
Adaptação 0,7
Migração/ deslocamento humano 0,4
Outros 4,1
Total 100,0

A tabela ao lado indica que três temas (Efeito Estufa, Energia e Conseqüências/Impactos das Mudanças ou Aquecimento) somam cerca de 50% do material pesquisado, sendo a metade restante distribuída entre outras 20 questões também relevantes. Assuntos como a ação coletiva internacional, a agricultura, o desenvolvimento, as causas do aquecimento e a adaptação ganham pouco ou nenhum destaque como temáticas centrais – ainda que possam aparecer lateralmente, como veremos adiante.

Se, por um lado, tais resultados denotam uma visão limitada da imprensa nacional sobre a complexidade da agenda em questão, por outro, preocupações quanto a uma possível superexposição do tema podem ser dirimidas por uma constatação que salta aos olhos quando nos aprofundamos sobre os números: há muitas pautas ainda por explorar.

Um dado adicional – e que ajuda a construir a hipótese de que a imprensa ainda pode se aprofundar mais na cobertura sobre o tema – é a constatação de que os jornais, em geral, tomam a parte pelo todo. Ou seja, conforme salienta o gráfico abaixo, apresenta-se mais a expressão “aquecimento global” (um dos impactos da mudança climática) do que a expressão “mudança climática” (que inclui o aquecimento, mas também outros tipos de alterações no clima).


Do global ao local

A distribuição da cobertura pela região original de cada um dos jornais consiste em uma vertente analítica relevante, especialmente quando analisamos o contexto de um país com as dimensões territoriais do Brasil – tendo as mudanças climáticas, por isso mesmo, distintas implicações de acordo com as características geográficas e culturais das regiões. De acordo com os cientistas, a Amazônia (Norte) e o Semi-Árido (Nordeste), por exemplo, surgem como as regiões brasileiras que serão mais afetadas.

Apesar disso, os jornais de tais localidades – especialmente os do Norte – dedicam menor atenção às alterações climáticas do que os da região Sudeste, especialmente quando comparamos com a cobertura sobre meio ambiente em geral, via de regra mais equilibrada.

Isso não quer dizer, entretanto, que a Amazônia receba pouca atenção por parte da imprensa escrita. A região aparece em 8% de todos os textos jornalísticos pesquisados, para além das menções conjuntas com outras áreas, das menções a estados e municípios específicos e das menções à região Norte. Ou seja, os jornais de alcance nacional e os econômicos (editados em Brasília, Rio e São Paulo) dedicam-se com maior intensidade a debater a questão das mudanças climáticas com foco nessa região amazônica do que propriamente os veículos ali sediados.


Jornais nacionais, agenda internacional

Os veículos que tendem a influenciar mais decisivamente o debate político do país (os de abrangência nacional e os econômicos) apresentam uma agenda mais internacionalizada – seja totalmente dedicada à cobertura de fatos que se passam na arena mundial, seja fazendo alguma vinculação com o Brasil – do que os jornais regionais. Nestes, a maior parcela da cobertura sobre mudanças climáticas (53,5%) é dedicada ao território nacional, enquanto, nos veículos de circulação nacional, o peso dos conteúdos com foco no contexto internacional é bastante superior ao majoritariamente centrado na realidade brasileira.

Como esta é uma análise de conteúdo e não de construção da notícia, não temos dados suficientes para explicar porque isto ocorre. Entretanto, o fato de que a pesquisa científica, as políticas públicas e a agenda geral ao redor do assunto estão mais consolidadas nos países desenvolvidos configura uma hipótese explicativa bastante plausível acerca das razões que levam a imprensa diária de abrangência nacional a apresentar tal concentração de textos no cenário internacional.

Vale ressaltar a relevância dos jornais regionais no agendamento do assunto. Historicamente, esses veículos tendem a trazer para a realidade local questões que em outros diários tendem a assumir uma roupagem mais ampla – o que, diga-se de passagem, não deve ser considerado um problema.

Tipos de jornais e localidade mencionada no texto
 
Tipos de Jornais Localidade mencionada no texto
  No Brasil Fora do Brasil Ambos Não foi possível identificar
Jornais Regionais 53,5% 22,5% 22,9% 1,2%
Jornais de Abrangência Nacional 36,8% 31,6% 29,5% 2,1%
Jornais Econômicos 32,7% 30,8% 36,5% 0,0%
Total 46,8% 25,8% 26,3% 1,3%