Segunda-feira, 22 de December de 2014 - 16:25
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A COBERTURA NO BRASIL

Análise da ANDI, em parceria com a Embaixada Britânica, revela o “estado da arte” da cobertura das mudanças climáticas pela imprensa brasileira. O objetivo é contribuir para uma investigação jornalística que aprofunda a informação, garante o debate com pluralidade de pontos de vista e aborda por variados ângulos esta que é possivelmente a pauta do século 21.

 

O clima na imprensa brasileira

A pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira (PDF 1.188 KB - Baixar Arquivo)(realizada pela ANDI com o apoio do Programa de Comunicação em Mudanças Climáticas da Embaixada Britânica no Brasil) busca fornecer subsídios relevantes para jornalistas e meios de comunicação no sentido de contribuir para avanços em suas estratégias para cobrir o tema. Quais razões, até aqui, levaram as mudanças climáticas à pauta dos veículos de comunicação?

O economista britânico Nicholas Stern, logo nas primeiras páginas do seu (agora) famoso relatório The Economics of Climate Change (A Economia das Mudanças Climáticas) (PDF 8.822 KB - Baixar Arquivo) , publicado em 2006, sentencia de forma decisiva: “A evidência científica é avassaladora: as mudanças climáticas apresentam riscos globais muito sérios e demandam uma resposta global urgente”.

O documento, também chamado de Relatório Stern, foi tornado público no mesmo momento em que a mídia impressa brasileira deu início a um aumento sem precedentes – ao menos no biênio 2006 e 2007 – no número de textos dedicados à cobertura dos temas relacionados às mudanças climáticas. A afirmação de Stern, bem como o contexto no qual ela foi produzida, nos ajuda a compreender os diversos fatores que podem ter contribuído para esse decisivo “despertar” ou “redespertar” da imprensa brasileira para o tema. Estudos internacionais demonstram a presença significativa, a despeito de críticas quanto ao conteúdo, da discussão sobre Mudanças Climáticas na mídia internacional desde, pelo menos, o final dos anos de 1980.

Foi em 1988 que os jornais norte-americanos, por exemplo, começaram sua escalada na cobertura sobre as mudanças climáticas - segundo o estudo Balance as bias: global warming and the US prestige press (Equilíbrio como viés: aquecimento global e a imprensa de prestígio dos EUA) (PDF 378 KB - Baixar Arquivo), publicado em 2004 pelos pesquisadores ambientais da Universidade da Califórnia, Maxwell Boykoff e Jules Boykoff.

Um fator importante nesse contexto foi o depoimento do cientista da Nasa James Hansen para a comissão consultiva para a ciência do Senado dos Estados Unidos, afirmando que as causas das mudanças climáticas eram também antropogênicas. Outros aspectos também convergiram para ampliar a atenção dedicada ao tema. Um deles foi o discurso da então primeira-ministra britânica, Margareth Tatcher, pronunciado na Royal Society, em Londres, reconhecendo a relevância do debate acerca das alterações do clima. O verão de 1988 fora um dos mais quentes – até então – nos Estados Unidos e geraram enormes problemas tanto para o meio ambiente quanto para a agricultura daquele país. Tais circunstâncias levaram o vice-presidente dos EUA, George Bush (pai), candidato presidencial, a declarar, na contramão de toda a política do governo Reagan, que o efeito estufa seria combatido com um “efeito Casa Branca”.


A ótica do valor-notícia

Retomando a análise do cenário atual, vale perguntar como o Relatório Stern e o seu contexto podem nos ajudar a explicar o interesse mais direto da mídia brasileira em relação à agenda das Mudanças Climáticas, a partir de 2006.

Talvez porque, assim como em 1988, o estudo buscou reforço nas “avassaladoras evidências científicas”. Contudo, a pauta científica por si só não explica a expansão da cobertura. Da mesma época, o documentário Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, colaborou ofertando poderosas imagens – assim como o verão de 1988 – que contribuíram para deslocar a idéia abstrata das Mudanças Climáticas para fatos bastante concretos (desde o derretimento de geleiras até o furacão Katrina, passando pelas histórias de personagens reais e de inúmeras ocorrências negativas).

Soma-se então o fato de a voz de um economista do establishment, Nicholas Stern, transformar um problema até então exclusivamente ambiental em um imbróglio econômico. Se ainda não bastava, os altos preços do petróleo e uma agenda concreta em torno das chamadas energias limpas também foram de grande impacto nas redações.

Em outras palavras, enfim percebia-se que vivemos um problema global que demanda soluções globais, para sedimentar a idéia de que não se trata de uma questão ambiental localizada nesta ou naquela região do planeta, como explica o membro da Academia Brasileira de Ciências, José Goldemberg, no artigo “Mudanças climáticas e desenvolvimento” (PDF 218 KB - Baixar Arquivo), publicado no livro Estudos Avançados, em 2000. Portanto, as evidências científicas, as fortes imagens, a conexão da questão com a agenda do desenvolvimento econômico, o inevitável compartilhar de responsabilidades acabaram, portanto, por delinear o valor-notícia desse debate, chamando a atenção da mídia brasileira.


O papel da imprensa

A partir do último trimestre de 2006, segundo aponta a pesquisa realizada pela ANDI, jornais e revistas do Brasil passaram a dedicar um espaço mais expressivo à questão das mudanças climáticas.

O desafio, portanto, está relacionado à capacidade das redações em manter e até ampliar o volume de cobertura, mesmo que elementos semelhantes aos fatores específicos que alavancaram o crescimento registrado em 2006 não voltem a ocorrer.

Nesse contexto, a pesquisa da ANDI estabeleceu quatro perspectivas para a análise da cobertura jornalística das mudanças climáticas:

  • Agendamento: o tema precisa ser agendado de forma prioritária entre a população em geral, mas, sobretudo, entre os chamados tomadores de decisão e formadores de opinião.
  • Enquadramento: não basta agendar o assunto, também é fundamental avaliar como é abordado.
  • Informação contextualizada: o assunto precisa ser tratado de maneira contextualizada, com diversidade de pontos de vista e aprofundamento.
  • Função de fiscalizar (watchdog): a temática necessita ser alvo de políticas públicas monitoradas pelos atores (imprensa e outras setores) que conformam o sistema de freios-e-contrapesos (peça fundamental para a boa governança e para a transparência nas sociedades democráticas). Espera-se que a imprensa atue como watchdog (termo também conhecido como “cão de guarda”) dos formuladores e executores de políticas públicas relacionadas à agenda climática, colaborando para elevar o nível de accountability dos mesmos.

A relevância dessas funções e o resultado da pesquisa nas seções que se seguem.

* Clique aqui para saber o que motivou o interesse da ANDI em trabalhar com a questão das mudanças climáticas.

O futuro das novas gerações

A ANDI, que desde 1996 tem se notabilizado pela produção de um conjunto expressivo e publicamente reconhecido de análises de mídia sobre os mais distintos temas, acredita que a produção deste estudo sobre a cobertura jornalística do tema mudanças climáticas represente uma contribuição para o aprimoramento do debate sobre uma questão que apresenta uma evidente relevância para o futuro de crianças e adolescentes.

O objetivo deste produto não é apenas apresentar resultados de uma pesquisa. É promover, a partir do monitoramento da mídia brasileira, uma cooperação entre jornalistas e fontes de informação para que sejam ofertadas contribuições concretas para a minimização dos efeitos das mudanças climáticas e para a implementação de um modelo de desenvolvimento que leve em conta a qualidade de vida das novas gerações.

Dessa forma, o diálogo público em torno das mudanças climáticas converge – ou deveria convergir – para o campo mais específico de atuação da ANDI: a promoção e a defesa dos direitos de crianças e adolescentes de hoje e de amanhã.