TRIBUNA DE TODAS AS VOZES
Ao longo da história, os meios de informação transformaram-se no espaço por meio do qual a agenda pública se organiza em um fluir permanente de narrativas de fatos e debate de opiniões. Por ter seus próprios olhos – suas escolhas e maneiras de abordá-las –, o jornalismo tem sido um ator de forte influência no desenho das sociedades e seus destinos.
Construindo a agenda pública
Foto: Olivier Boels |
Com o entendimento de que a imprensa é um ator fundamental para as democracias contemporâneas e para a garantia dos direitos humanos, e de que constitui engrenagem-chave do processo de desenvolvimento das nações – como veremos nas seções seguintes –, a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), com o apoio do Programa de Comunicação em Mudanças Climáticas da Embaixada Britânica no Brasil, realizou a pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira (PDF 1.188 KB - Baixar Arquivo), na qual analisa a cobertura da imprensa brasileira a respeito no fenômeno.
* Os resultados da pesquisa estão na seção A cobertura no Brasil
Mas por que compreender como as mudanças climáticas vêm sendo abordadas pelos meios de comunicação? Por que é crescente a preocupação sobre o comportamento da mídia frente ao tema?
Essas perguntas poderiam ser respondidas através de vários ângulos. De um ponto de vista bastante presente no senso comum, a mídia seria importante por possuir enorme capacidade de influenciar a opinião pública; para muitos, manipular mais que influenciar.Os meios de comunicação seriam, assim, vistos como uma fonte direta de poder. Este viés, digamos “conspiratório”, contudo, foi bastante enfraquecido pelo desenvolvimento do campo de pesquisa em comunicação e não reflete a perspectiva que adotamos. Clique aqui para saber mais sobre essa visão.
De outro ponto de vista, a idéia de que a cobertura da mídia sobre mudanças climáticas – e outros temas de ordem ambiental e social – é importante se baseia em alguns aspectos, não necessariamente consensuais, que são historicamente vinculados às funções e ao poder da mídia em regimes democráticos, sendo eles: a capacidade de “agendamento” e “enquadramento” dos temas, provisão de informação contextualizada e a fiscalização (watchdog) das instituições.
* Mais sobre esses conceitos na seção A cobertura no Brasil
O surgimento desses papéis se associa a uma tríade de conceitos que demarcam uma visão de mundo específica e justificam uma preocupação especial em relação à comunicação – e seus reflexos evidentes na discussão das alterações climáticas. Nas seções que se seguem (Liberdade, democracia e direitos e Comunicação e Desenvolvimento), buscaremos relacionar a origem remota da imprensa e a idéia de Democracia. Outra vinculação, não menos fundamental, consolidada ao longo de séculos, é com a questão dos Direitos Humanos. E, por fim, chegamos ao debate sobre Desenvolvimento.
Os três conceitos se relacionam intimamente e serão, sempre que possível, trabalhados em conjunto a partir de suas intersecções. Podemos, por exemplo, partir da necessidade da existência de um regime democrático-liberal para que o desenvolvimento das nações e a consolidação dos direitos humanos venham a ter lugar. De outro ponto de vista, é possível também dizer que a proteção dos direitos humanos é fundamental para a consolidação da democracia e do desenvolvimento. Ou então mencionar que o desenvolvimento das nações é essencial para a garantia dos direitos humanos e para a manutenção da democracia.
Essa possibilidade de realizar repriorizações ocorre porque, após séculos de esforços crescentes pelo alcance de um mundo mais democrático, desenvolvido e com maior proteção dos direitos humanos, todos os três conceitos – especialmente no Ocidente – possuem tantos pontos de intersecção que acabamos por confundi-los mutuamente.
Na área dos estudos sobre a mídia foi bastante presente, especialmente nos anos 20 e 30 do século passado, uma perspectiva que ficou conhecida como “Teoria da Agulha Hipodérmica”. O modelo não foi proposto por nenhum autor, mas é uma visão retrospectiva de como diversos analistas tratavam a comunicação de massa nesse período.
Essa abordagem está baseada na idéia de que os meios agem diretamente sobre os indivíduos – que recebem os conteúdos passivamente e são incapazes de qualquer resistência. Dessa característica viria a associação com uma agulha, que, de forma análoga, penetra a pele sem maiores dificuldades. Segundo esse modelo, a mídia pode moldar intencionalmente o comportamento dos receptores, constituídos enquanto indivíduos isolados e desmobilizados.
Essa teoria foi sendo paulatinamente refutada, logo que as pesquisas empíricas nesse campo avançaram. Os olhares mais experimentais foram capazes de perceber como a relação de comunicação entre um emissor (mídia) e um receptor (público) seria infinitamente mais complexa e envolveria, por exemplo, a mediação de formadores de opinião e de uma série de outras relações sociais pré-constituídas. Passaram a mostrar, dentre outros aspectos, como indivíduos interpretam as mensagens também de acordo com seus referenciais, perspectivas pessoais e preconceitos.
Um marco nesse desenvolvimento ocorre, na década de 1970, com a formulação da hipótese do Agenda Setting, que discorda da capacidade da mídia de influenciar como as pessoas pensam, mas afirma sua força no sentido de promover determinados temas na esfera pública – como será abordado na seção Agendando o debate.

















