Quinta-feira, 11 de Março de 2010 - 06:38
Impactos / Conseqüências no Brasil

Sistema de saúde necessita de cuidados

As pesquisas brasileiras na área de saúde são ainda incipientes e necessitam de investimentos adicionais. Contudo, em 2005, o pesquisador Ulisses Confalonieri coordenou um estudo que criou uma metodologia para avaliar a vulnerabilidade do setor saúde e da população em relação ao impacto do clima. Encomendado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), o grupo de pesquisadores coordenados por Confalonieri criou o Índice de Vulnerabilidade Geral (IVG) e o aplicou em todos os estados brasileiros.

Esse índice é resultado da ponderação de dados sobre a incidência de algumas doenças, as condições de vida da população e as oscilações do clima. O indicador se propõe a apontar o quanto uma certa região está sensível aos danos da transformação climática.

De acordo com Ulisses Confalonieri,que também é colaborador do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, “o Brasil é um país muito vulnerável aos efeitos do clima por razões que incluem sua extensão territorial e pelo fato de que grande parte da população tem pouco acesso a bens e serviços básicos”.

Ele explica como desenvolveu o estudo na região Nordeste: “Analisamos dados socioeconômicos, climáticos e de doenças regionais. Os aspectos que já conhecemos como indicadores sociais, renda e expectativa de vida baixos e a mortalidade infantil foram levados em consideração na definição do IVC”.

A principal conclusão do grupo é que a região Nordeste, devido a uma combinação de pobreza, exposição a moléstias e o cíclico fenômeno da seca, é a que demonstra menor capacidade de suportar os efeitos do aquecimento. O destaque negativo é o estado de Alagoas. Na escala de 0 a 1, Alagoas exibiu um IVG de 0,64, o mais alto do país. Em seguida despontam os estados da Bahia (0,46) e Pernambuco (0,44).

No outro extremo surgiram os estados do Rio Grande do Sul (0,13), Mato Grosso do Sul (0,14), Distrito Federal (0,17), Paraná (0,18), Santa Catarina (0,19) e Goiás (0,20), que se revelaram menos suscetíveis às mudanças e/ou os mais capazes de enfrentá-las.

De acordo com o Haroldo Machado Filho, da Coordenação de Mudanças Climáticas do MCT, a criação do IVG é um passo fundamental para mapear os impactos na área da saúde. “Esse trabalho é o primeiro com foco em saúde e mudança do clima e ajudará a criar políticas que atuem no sentido de melhorar o controle de doenças”, afirma.


Categorias de riscos

Segundo o professor Ulisses Confalonieri, os riscos à saúde gerados pela mudança climática podem ser divididos em três categorias. A primeira é a das doenças transmissíveis: os fatores climáticos podem acelerar os ciclos infecciosos e facilitar a dispersão espacial dos agentes microbianos e de seus transmissores. A segunda diz respeito aos extremos de clima, quando podem ocorrer inundações, temporais e secas. O terceiro efeito se dá na produção de alimentos, o que tem um impacto direto na saúde. Confalonieri conclui alertando que os efeitos do clima na saúde são indiretos. “Eles fazem parte de uma complexa rede que envolve também questões socioeconômicas, demográficas e ambientais”.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, um dos principais riscos que a saúde do Brasil – e dos países em desenvolvimento – corre com as mudanças climáticas é o do aumento dos casos de dengue, cólera e febre amarela. A dengue, especificamente, merece atenção. A diretora-geral da organização, Margaret Chan, ressalta que a doença é um problema com muitas dimensões e as mudanças nas chuvas têm contribuído para o aumento de registros. De acordo com a organização, a previsão é de aumento do risco também nas grandes cidades, não apenas nas zonas de matas. Nesse sentido, segundo ela, “o Brasil precisa estar preparado para o pior dos cenários”. A OMS convocou governos de países em desenvolvimento a fortalecerem seu sistema de saúde, levando esses impactos em consideração.