Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010 - 22:04
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Empregos verdes despontam como aposta em nova economia mundial

A crise financeira mundial e a oportunidade de transição para uma nova economia menos carbono intensiva são temas que vêm sendo intensamente discutidos no cenário internacional. A economia verde surge como estratégia inadiável em um cenário no qual as mudanças do clima ditam a necessidade de remodelação de mercados, negócios e tecnologias. Entretanto, a urgência de medidas efetivas segue contrastando com o lento ritmo das ações implementadas pelos países.

“Esse é um caminho de mudanças que está começando a ser trilhado, mas de forma muito gradual. Não há um grande plano, mas sim iniciativas pontuais, embora seja notório que a necessidade de crescimento sustentável está sendo, cada dia mais, incorporada pelos políticos e gestores públicos, por uma questão de sobrevivência econômica”, avalia o técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea), José Gustavo Feres.

Ele destaca o impacto da crise financeira: o pacote de medidas anticrise representou 7% do Produto Interno Bruto nos Estados Unidos e na China chegou a 13%. Os percentuais da União Européia também não são animadores. Dados relativos ao primeiro trimestre de 2009, comparados ao mesmo período do ano passado mostram quedas do PIB nos países europeus. A maior economia do bloco, a Alemanha, liderou a performance negativa, com queda de 2,1%. Na França, a segunda maior economia, a redução foi de 1,2% e na Itália, a terceira maior, foi de 2,4%.


Brasil na contramão?

“As medidas do governo brasileiro para evitar mais impactos da crise financeira não consideram a questão ambiental”, avalia o diretor de políticas públicas do Greenpeace, Sérgio Leitão. Ele destaca que o país está perdendo uma grande oportunidade de estimular a chamada economia verde e de fato promover o desenvolvimento sustentável.

“O governo poderia, ao mesmo tempo, incentivar o emprego e também impulsionar uma economia moderna, que é aquela com baixo consumo de eletricidade, menos carbono intensiva”, aponta o ambientalista.

Na opinião de Leitão, o Brasil só visualiza o lado econômico da crise, sem identificar as possibilidades que podem gerar menos impacto. “As medidas adotadas para fortalecer a indústria automobilística, por exemplo, também poderiam incluir ações compensatórias do ponto de vista ambiental. A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) poderia ter sido condicionada à maior rapidez no desenvolvimento e na produção de motores adaptados a diesel menos poluente”, critica.

O PIB não é mais a bússola da economia mundial

De acordo com, Anne Louette, pesquisadora da área de sustentabilidade, o Produto Interno Bruto (PIB) não é mais bússola para a economia mundial, pois ele não computa o tripé social, ambiental e econômico.

“Para ser ter uma idéia de como o PIB é perverso, a destruição da Amazônia é uma atividade que faz avançar o PIB, pois a floresta em pé não contabiliza – isso ocorre apenas se a madeira for derrubada e se tornar um móvel ou uma mercadoria. Ou seja, o PIB não considera as perdas do patrimônio natural, mas sim a destruição organizada. Desta forma, índices elevados do PIB não são garantia de desenvolvimento sustentável”, explica Louette, que também é coordenadora do Instituto AntaKarana, uma organização não-governamental que desenvolve projetos na área de responsabilidade socioambiental.

De acordo com o Compêndio de Indicadores de Sustentabilidade de Nações, coordenado pela própria pesquisadora, até o início do século passado os economistas clássicos eram todos filósofos morais; a economia deveria ser orientada para o bem comum, para a felicidade humana. Essa visão começa a mudar com o surgimento do pensamento neoclássico, no fim do século XIX.

“Nesse momento acontece uma coisa curiosa: a economia abandona seu caráter filosófico para tornar-se matemática. Com isso os neoclássicos terminaram sem saber o que fazer com as necessidades humanas e simplesmente as descarta, passando a avaliar a sociedade pelo que ela compra no supermercado. Esse cálculo, por certo, permite muitos números, mas todos fora da realidade”, defende Anne Louette.

Segundo ela, uma das propostas de revisão do PIB está em andamento desde meados do ano passado na França. O presidente Nicolas Sarkozy encomendou a um grupo de 27 renomados especialistas – entre eles os ganhadores do prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz (2001) e Amartya Sen (1998) – uma reforma da métrica. Matemáticos, estatísticos, economistas ambientais e estudiosos da pobreza reforçam o time, que ficou conhecido como Comissão Stiglitz-Sen.

A comissão trabalha em três frentes. Uma delas busca atualizar o PIB padrão, de modo que o indicador se torne mais abrangente e mais relevante para os formuladores de políticas públicas. Outra tenta incorporar novas medidas de sustentabilidade ambiental aos dados e, assim, mensurar o impacto da economia sobre os ecossistemas. Por último, o grupo trabalha na criação de novos indicadores para avaliar qualidade de vida e bem-estar.