Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010 - 22:19

Jornalismo, política e clima: uma relação fundamental

As mudanças climáticas superam as dimensões de um problema ambiental. O fenômeno vem, paulatinamente, sendo abordado nos debates internacionais a partir de suas implicações econômicas e políticas. Cada vez mais, o tema está ganhando centralidade nesses campos, seja em discursos de lideranças mundiais – como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown –, seja como eixo de reflexão e formulação de estratégias destinadas à promoção do desenvolvimento.

Com a finalidade de discutir essas inter-relações, especialistas e jornalistas se reuniram no Encontro Jornalismo, Política e Clima, promovido pela ANDI e a Embaixada Britânica no Brasil em 31 de março de 2009, em Brasília. Participaram do debate Eduardo Viola, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Sérgio Leitão, diretor de Campanhas do Greenpeace, Veet Vivarta, secretário-executivo da ANDI, Daniela Chiaretti, repórter especial do jornal Valor Econômico e a jornalista britânica Fiona Harvey, do Financial Times.

Os especialistas consideram fundamental para o avanço da discussão sobre o fenômeno a adoção por parte do Brasil de metas de redução de emissões de carbono perante a comunidade internacional, o estabelecimento de medidas concretas relacionadas ao fenômeno climático no enfrentamento da crise financeira, a ampliação do tema para diversas esferas do âmbito governamental e a adoção de políticas rumo a uma economia de baixo carbono.


Economia de baixo carbono

Embora falem a partir de pontos de vista distintos, é possível identificar uma linha comum nos discursos dos expositores: todos apontam para a necessidade de olhar as mudanças climáticas de forma transversal. Para isso é necessário conhecer os principais pontos em jogo nessa complexa inter-relação.

“Continuamos falando basicamente de mudanças climáticas ou aquecimento global”, analisa o professor da UnB Eduardo Viola. “Pouco se fala no Brasil de outros conceitos que já entraram no centro da mídia internacional, como economia de baixo carbono”, diz o pesquisador, que se dedica, entre outras coisas, ao estudo da economia política da mudança climática.

* Leia os principais pontos da apresentação de Eduardo Viola no encontro
Assista ao vídeo com a fala do professor da UnB

Fiona Harvey, do Financial Times, aponta que a relação entre economia e questão climática encontra um importante exemplo no debate sobre a crise financeira mundial. “O mundo está gastando trilhões de dólares para reestruturar a economia do planeta. Porém, se esse montante for investido no tipo de infra-estrutura que já temos, será impossível reduzir as emissões de carbono ao nível necessário para minimizar o aquecimento global”. Portanto, para ela, é vital que esses recursos sejam alocados para a construção de uma economia de baixo carbono, o que significa energia renovável, transporte público limpo, carros mais eficientes. “Esse dinheiro pode ser gasto de uma maneira mais positiva para o meio ambiente”, afirma.

* Leia os principais pontos da apresentação de Fiona Harvey no encontro
* Assista ao vídeo com a fala da jornalista (em ingês)

Esse enfoque voltado para uma economia de baixo carbono, que vem ganhando espaço em outros países, está vinculado ao fato de que a mudança climática chegou ao centro do sistema internacional, tornando-se notícia em editorias de política e economia. “Em 2009, essa centralidade se acentua. Uma razão decisiva é a eleição de Barack Obama, que gerou uma mudança na opinião majoritária nos Estados Unidos a respeito do fenômeno”, afirma o professor Viola.

Segundo ele, com algumas exceções, tal fenômeno ainda não se refletiu na imprensa brasileira, o que acarreta o confinamento da cobertura sobre mudanças climáticas nos cadernos especiais e de ciências. “Mesmo nos segmentos de maior educação no Brasil, a questão ambiental e a climática continuam sendo tratadas como sinônimos. E isso é um atraso em relação a entender o mundo em que estamos vivendo e o desenvolvimento científico quanto a essa realidade”.


Desenvolvimento e negócios

“É nesse ponto que reside o confronto político, econômico e ideológico em torno do fenômeno, fazendo com que essa discussão tenha uma dificuldade muito grande de ser traduzida para o mundo real”, afirma.

* Leia os principais pontos da apresentação de Sérgio Leitão no encontro 
* Assista ao vídeo com a fala do especialista 

Diante desse conflito entre abrir mão ou não de determinadas estratégias de desenvolvimento, fica mais do que claro que o tratamento político e econômico das mudanças climáticas passa pelos negócios. E isso se apresenta como uma grande oportunidade de abordagens para os jornalistas. “A mudança climática é, sim, uma questão empresarial e esses aspecto deve ser discutido pela imprensa”, acredita Fiona Harvey.

A nova regulamentação das emissões de carbono em discussão em âmbito mundial, por exemplo, terá um impacto fundamental nas empresas. “A Europa possui um sistema no qual as grandes empresas têm que monitorar e controlar todas as emissões de dióxido de carbono. Isso se torna uma questão empresarial seríssima, uma vez que deve-se pagar pela quantidade de CO2 emitida. Quando abordo as mudanças climáticas , tenho o cuidado de tratar o assunto sob esse prisma”, diz.


Pacotes econômicos

De acordo com os palestrantes do encontro, a ausência de nexo entre as mudanças climáticas e essas questões econômicas e políticas faz com que as pessoas percam de vista, de um lado, os possíveis impactos das políticas e ações dos governos sobre o clima do planeta e, de outro, as consequências diretas desse processo sobre suas vidas.

O professor Viola dá um exemplo: em alguns países, a mídia tem buscado analisar os pacotes econômicos propostos pelo governo em termos de seus impactos sobre o meio ambiente, bem como do seu potencial para a transição de matriz energética e rumo a uma economia de baixo carbono. Na opinião dele, a mídia brasileira está ausente desse debate, seja ao abordar as propostas dos governos norte-americano, britânico ou alemão, seja ao comentar as ações do governo brasileiro.

“O estímulo governamental à indústria automotiva no país, por exemplo, é um dos mais atrasados do mundo. Está criando um problema cada vez mais grave, congestionamento urbano, pouca qualidade de vida e aumento das emissões de carbono. Ou seja, a defasagem entre números de carros e infraestrutura é um problema bastante específico do Brasil”, analisa.

Como esse enfoque está ausente da imprensa, a sociedade perde uma oportunidade de refletir e debater os impactos decorrentes do incremento da venda de automóveis, como tem acontecido neste início de 2009, como resultado das ações do governo para aquecer a economia.


A postura governamental

Para a jornalista Daniela Chiaretti, o comportamento da mídia brasileira reflete a falta de integração entre as várias áreas do governo federal no que diz respeito à questão das mudanças climáticas. Segundo ela, o tema é pautado num tripé: o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. “Dificilmente ela se afasta desses três organismos do governo. Isso dificulta bastante a cobertura”, diz a repórter. “É difícil sair desse esquema, porque os ministros de outras áreas não respondem às perguntas nesse sentido”.

Além disso, Daniela aponta que falta integração. “De um lado, o país tem o Plano Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), que prevê que até 2017 nós vamos conseguir conter o desmatamento em até 72%. E por outro, o Plano Nacional de Energia, que não se relaciona com o primeiro. A construção de estradas também não está relacionada ao PNMC”, exemplifica. Ao não estabelecer relações entre essas questões, a mídia reproduz uma “esquizofrenia do governo”.

Outro aspecto que dificulta uma cobertura mais aprofundada e reflexiva, na opinião de Daniela, é o fato de o tema estar fora da pauta mais abrangente do governo. “Eu não me lembro de ter visto a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, falando de mudança climática. Não me lembro de uma única citação sobre aquecimento global vinda da ministra mais forte do governo Lula”, assinala a repórter Daniela.

* Leia os principais pontos da apresentação de Daniela Chiaretti no encontro
* Assista ao vídeo com a fala da jornalista


A questão das metas

Uma outra postura governamental comentada pelos especialistas ao longo do evento foi o compromisso com metas de redução de emissões. Para o professor Eduardo Viola, um dos principais problemas em relação à mitigação das mudanças climáticas é o fato de o Protocolo de Quioto ter estabelecido metas de redução de emissões apenas para países desenvolvidos. Entretanto, o novo acordo global a ser estabelecido em dezembro de 2009 terá uma arquitetura diferente. “A redução das emissões será compulsória para países de renda média”, prevê Viola.

Nesse ponto, o Ministério do Meio Ambiente foi revolucionário, acredita o professor. O Ministro Carlos Minc assumiu, pela primeira vez, controle da posição brasileira no diálogo internacional a respeito do tema – até então todas as decisões e posicionamentos do país perante à comunidade internacional eram tomadas exclusivamente pelo Itamaraty. “Internamente, se assume corretamente a posição de que o país tem sim, que adotar metas de redução de emissões na construção de um novo acordo climático”, afirma Viola.

Segundo ele, o Brasil é o país com o menor custo de redução de emissões do mundo. Isso porque a principal fonte de emissões de carbono brasileira é o desmatamento. “Há uma diferença enorme, associada ao Produto Interno Bruto dos países, entre deixar de desmatar (caso do Brasil) e não construir uma termoelétrica (situação da China)”, exemplifica.

O estabelecimento de compromisso internacional com metas de redução por parte do Brasil, segundo Viola, é decisivo para que outros países em desenvolvimento, como China e Índia, aceite as novas regras a serem definidas. “Se isso não acontecer, não há acordo. Sem acordo, os que mais perdem primeiro são os mais pobres, mas em segundo lugar perdemos nós”.

De acordo com Sérgio Leitão, para que isso aconteça é necessário que o Itamaraty mude seu discurso oficial. “O Brasil afirma que só pode fazer algo em relação às mudanças climáticas depois que superar suas assimetrias”. O problema, segundo ele, é que o país tem assimetrias em relação a países desenvolvidos, mas também possui desigualdades internas – que sequer são mencionadas nos discursos.


Limitações da imprensa e das fontes

Para Leitão, existe uma dificuldade por parte da imprensa em esmiuçar todos os matizes apresentados pelos especialistas e oferecer ao leitor ou telespectador uma abordagem mais concreta em a respeito do fenômeno e suas implicações.

“Temos observado que a imprensa brasileira avança em relação a um viés de cobrança, de investigação no campo político-econômico relacionado às mudanças climáticas. Mas ainda é um potencial que não corresponde ao que se tornou a própria agenda brasileira, já que o Brasil hoje é considerado um dos países centrais em relação a essa questão, seja a agenda brasileira externa, seja a agenda brasileira interna”, analisa o secretário-executivo da ANDI, Veet Vivarta.

* Veja apresentação de Veet Vivarta no encontro

As limitações dos veículos de comunicação, porém, não podem ser atribuídas somente aos jornalistas, enfatiza Sérgio Leitão. “Isso acontece porque nós temos – o setor ambientalista, as ONGs ambientais e os cientistas – uma dificuldade muito grande de tornar esse assunto interessante para quem lê”. Ou seja, segundo o ativista, as fontes de informação têm sua parcela de responsabilidade no sentido de promover não só a mudança do tom da cobertura sobre o tema, bem como a percepção dos cidadãos em relação a ele.

“Muitas vezes, o discurso sobre mudanças climáticas fica no campo da ciência, de uma maneira muito fechada. A gente precisa ter a humildade de saber que existe uma barreira de comunicação, a qual precisa ser superada, para falar com a população. A gente fala para achando que está falando com – e as pessoas não estão entendendo nada”.

Para ele, existe uma tendência, inclusive entre as fontes de informação, de tratar a questão das mudanças climáticas de uma maneira apocalíptica, o que acaba gerando um imobilismo por parte da população em geral. “Nós assustamos as pessoas, nós criamos um terror e não conseguimos sair disso. E mídia reflete essa atitude, que muitas vezes gera uma paralisia. Esse é o equilíbrio que a gente ainda não conseguiu encontrar, entre a disseminação da informação e um processo de indução à tomada de atitude ou mudança de atitude”, continua Leitão.


Uma proposta viável, com ressalvas

A proposta de tornar a cobertura mais transversal, ou seja, abordar o tema das mudanças climáticas estabelecendo relações entre diversos campos da vida humana, é, de fato, visto como uma alternativa viável – a qual, pouco a pouco, vem sendo construída no âmbito da mídia internacional.

Tal transversalização nos veículos estrangeiros, entretanto, não foi realizada sem desafios. Fiona Harvey, que trabalha como correspondente de Meio Ambiente desde 2004 no Financial Times, do Reino Unido, conta que teve de convencer seus editores que o assunto era realmente importante e que soaria interessante inclusive aos seus leitores, na maioria pessoas de negócios.

“No início de meu trabalho com o tema, percebi rapidamente uma questão importante: mudanças climáticas não são apenas uma questão ambiental. Isso é um ponto importante que editores têm que ter em mente. É fácil para os veículos de comunicação deixarem de lado matérias sobre meio ambiente. Elas não são levadas muito a sério”, diz Fiona.

Dentro dessa perspectiva, propõe a jornalista, é preciso apresentar o tema com todas as suas implicações sociais, políticas e econômicas. Mas é necessário também mostrar soluções. “É muito fácil para o jornalista ver a mudança climática como um problema terrível, em que tudo é ruim. É importantíssimo apresentar o fenômeno não apenas como um problema, mas como um problema que tem solução. No Financial Times, nunca tratamos apenas por esse enforque. Nossos leitores, em especial empresários e políticos – aqueles que são realmente podem trabalhar para resolver a questão – querem receber respostas e potenciais soluções para aquele problema”, analisa Fiona.

Por isso, defende, essa é a hora para todos nós, em conjunto, apresentarmos o aquecimento do planeta como uma questão que pode ser mudada. “É claro que a ameaça é imensa, mas nós temos uma oportunidade ímpar de refazer o mundo”, conclui.

Para o jornalista Luis Nassif, que acompanhou o encontro, o modo de organização das redações brasileiras pode se constituir em um empecilho para a transversalização da pauta no país. Segundo ele, esse modo de organização não condiz com a maneira como a informação é produzida e circula na sociedade contemporânea. “Hoje, o conhecimento, até em nível de empresa, passou a ser sistêmico. As empresas acabaram com aquela história de um departamento de finanças, outro de outro assunto”, analisa. Mas, continua o jornalista, na imprensa persiste esse modelo de compatimentalização. “Isso dificulta muito pegar o mesmo objeto e obtter várias abordagens simultâneas”.

* Veja entrevista com Luis Nassif

A diversificação das fontes também pode colaborar para mudar essa realidade, afirma Nassif. “Outro ponto em relação à mídia é a incapacidade de buscar fontes alternativas. Há ciclos viciosos de fontes e ainda há uma dependência muito grande de governo”.

Para o editor de política do jornal Correio Braziliense, Alon Feuerwerker, é preciso mudar a perspectiva da cobertura. Na visão dele, a agenda política a respeito de mudanças climáticas que chega à imprensa se resume ao que não pode ser feito. “E existem diversos grupos e diversos movimentos, cada um com sua micro agenda sobre o que não pode ser feito”, afirma. No fim, segundo ele, o que resta é uma macro agenda negativa: não construir hidrelétricas, termoelétricas, estradas, hidrovias, ferrovias, porque cada empreendimento tem um impacto ambiental diferenciado. Tal cenário, completa, não condiz com a realidade brasileira: “É preciso que, quando os assuntos sejam trazidos para nós, venham de uma maneira que faça sentido à nossa realidade”.

*Ouça entrevista com Alon Feuerwerker

Numa linha de raciocínio semelhante, Lisandra Paraguassú, repórter de O Estado de S. Paulo, acredita que tanto a imprensa quanto as fontes de informações, ao falar em enfrentamento às mudanças climáticas, se concentra na cobrança de atitudes individuais da população. “Se joga uma culpa muito grande em cima das pessoas, no dia a dia, quando o foco central deveria ser o governo“.

*Conheça a resposta dos especialistas a essas e outras questões, bem como mais opiniões dos profissionais de comunicação assistindo aos vídeos do debate entre os presentes no encontro