Quinta-feira, 29 de Julho de 2010 - 16:28

Imprensa reflete esquizofrenia governamental

Daniela Chiaretti

Imprensa reflete esquizofrenia governamental

 

Para a repórter especial do Valor Econômico, a ausência de relações entre mudanças climáticas e questões políticas e econômicas na cobertura jornalística sobre o fenômeno reflete, antes de mais nada, a postura do governo brasileiro. Veja abaixo os principais pontos abordados por ela no Encontro Jornalismo, Política e Clima.
 
 
Um debate político-econômico
 
A questão climática e a questão econômica estão totalmente interligadas. Acredito que o debate atual sobre o fenômeno se encontre em um momento que chamo de ‘entre dois Sterns’. O primeiro é Nicholas Stern, que em 2006 realizou um estudo – a pedido do tesouro britânico – comprovando os impactos das mudanças climáticas na economia. O outro é Todd Stern, principal negociador do governo norte-americano de Barack Obama no processo de construção de um novo acordo global sobre clima, que culmina no final de 2009 na COP 15, em Copenhague. O que os Estados Unidos vão fazer – e como isto vai levar junto o grupo europeu e todos os países emergentes – é a principal pauta dos debates.
 
 
Esquizofrenia governamental
 
No Brasil, a mídia reflete em grande parte as posições esquizofrênicas do governo ao lidar com as alterações do clima. A questão climática está sempre pautada em um tripé, no âmbito dos ministérios: o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Dificilmente ela sai da esfera desses três organismos do governo. Isso dificulta bastante a cobertura.
 
Por exemplo, eu não me lembro de ter visto a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, falando de mudança climática. Não me lembro de uma única citação sobre aquecimento global vinda da ministra mais forte do governo Lula. Quer dizer, esse assunto está fora de uma pauta mais abrangente.
 
Falta integração. De um lado, o país tem o Plano Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), que prevê que até 2017 vamos conseguir conter o desmatamento em até 72%. E por outro, o Plano Nacional de Energia, que não se relaciona com o primeiro. A construção de estradas também não está relacionada ao PNMC.
 
Na verdade a imprensa brasileira, ao também não fazer relações entre essas questões, reproduz uma esquizofrenia do governo. É difícil sair desse esquema, porque os ministros de outras áreas não respondem às perguntas nesse sentido.
 
No Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), por exemplo, se menciona os aeroportos, o quanto se quer construir de novos aeroportos no Brasil, ou ampliar pistas. Há ali um cálculo de aumento de vôos de cerca de 16% a cada ano. E a aviação é um dos setores mais críticos em termos de emissões de gases de efeito estufa no mundo. Mas a imprensa só consegue abordar pelo lado de segurança e tráfego aéreo. Essa questão das emissões de carbono não entra na pauta.
 
A título de comparação, existe um estudo britânico a respeito de como diversos setores podem reduzir as emissões de carbono. Ao falar de aeroportos, o documento menciona até mesmo que a British Airways, por exemplo, taxia os aviões só com uma turbina, para reduzir as emissões de carbono. São estudadas também rotas diferentes para o tráfego aéreo da União Européia, o que poderia reduzir as emissões de carbono em 20%.
 
As alternativas estão colocadas, mas a gente não consegue fazer esse tipo de link no Brasil. É difícil.
 
 
Cobrar ações e mostrar exemplos
 
O debate sobre adaptação – adequação às mudanças climáticas – é absolutamente incipiente no Brasil. E falar em adaptação significa abordar a questão da água, em todos os aspectos: ou escassez de água, ou tormentas de água, inundações, etc. Existem algumas soluções que são muito simples. Onde a gente pode se nutrir de material para contar essas histórias de mudança climática? Existem muitas iniciativas. É preciso buscá-las.
 
Eu fui cobrir a COP 14, na Polônia, e ouvi de um representante da Cruz Vermelha que em Bangladesh – sempre com muitas cheias e muitas inundações – uma senhora resolveu abandonar seu galinheiro e criar patos, porque o pato nada, enquanto as galinhas morrem. A Cruz Vermelha observou isso, achou interessante e está trazendo experiência para vários países carentes da África com povoados ao lado de rios, onde as inundações acontecem inesperada e rapidamente.
 
Esses povoados africanos, por exemplo, tomaram atitudes muito simples para se adequar ao problema. Uma, é deixar de colocar no chão os grãos colhidos, porque a inundação do rio é rápida e, de repente, se perdia toda a produção. Então agora eles põem num saco. Eles contam, também, com um sistema de apitos, no qual algumas pessoas monitoram pelo ruído o fluxo de água que vem pelo rio. Eles apitam, avisam o pessoal do povoado, que pega os sacos da produção e leva para o ponto mais alto do vilarejo. Com os grãos estocados lá, a inundação passa e a população não perde tudo.
 
São formas de adaptação muito simples, mas que estão se difundindo no mundo. No Brasil, por exemplo, com todas as cidades costeiras que temos, até agora não foi desenvolvido nada de concreto nesse sentido.