Jacques Marcovitch

Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), Jacques Marcovitch pesquisa desde 2002 as políticas de implantação da Convenção do Clima e do Protocolo de Quioto, com ênfase nas estratégias que almejam a redução dos gases de efeito estufa na atmosfera. É autor de diversas publicações, entre elas o livro "Projetando o futuro – mudanças climáticas, políticas e estratégias empresariais", de 2006.


Para lidar com questões de meio ambiente, o senhor defende a estratégia de um novo ambientalismo, do qual o mercado participa ativamente. Como se compõe essa tentativa de construção de um futuro conjunto?

J. M.: O novo ambientalismo se caracteriza pela multiplicidade de atores. O mercado, sempre julgado pelos utópicos uma encarnação do conservadorismo alienado, juntou-se a governos, cientistas, organizações sociais, agentes econômicos e cidadãos para enfrentar a poluição atmosférica, um dos maiores desafios da nossa era. Engendrou-se, no âmbito da ONU, um instrumento de transformação e sustentabilidade como jamais fora possível em décadas consecutivas de negociações: o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).

Apesar da desconfiança de grupos “verdes”, esse novo ambientalismo chegou para ficar, com apoio das facções menos ortodoxas e mais pragmáticas do movimento. Se os ambientalistas utópicos insistirem no distanciamento do mercado, poderão esvaziar sua luta e perder a batalha das idéias para grupos mais ousados e criativos, dispostos a protagonizar uma segunda revolução ambiental.

Nessa nova causa, podem figurar lado a lado Adam Smith, o herói dos defensores do livre mercado, e os grandes combatentes da ecologia no passado. O atual contexto histórico  exige dos agentes econômicos, da academia, dos governos e das ONGs a busca de uma complementaridade cada vez mais indispensável para a segurança ambiental do futuro.

Quais são os maiores desafios e obstáculos para o enfrentamento das mudanças climáticas nos próximos anos de forma multilateral pelas nações?

J. M.: O maior obstáculo em qualquer negociação é a inflexibilidade. No caso das discussões sobre as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, de um lado podemos citar a obstinada resistência dos Estados Unidos em cumprir metas redutoras e, de outro, a rígida continuidade nas posições de países emergentes – incluídos, ao mesmo tempo na lista dos maiores poluidores e dos isentos de qualquer obrigação –, que se recusam a qualquer mudança no princípio da responsabilidade diferenciada, como a China.

Qual é a importância histórica do Protocolo de Quioto e quais metas devem ser assumidas pelos países desenvolvidos?

J. M.: A importância histórica do Protocolo de Quioto se define pelo fato de que, antes dele, não havia pactuação multilateral contra o aquecimento do planeta, nem um horizonte para novos ajustes entre as partes. Temos atualmente um compromisso global devidamente institucionalizado. É inegável que os resultados até agora são limitados, mas eles podem crescer em conseqüência de iniciativas voluntárias ou de novas conversações em fórum próprio.

Para que isso aconteça, a referência para a fixação de futuras metas dos países desenvolvidos não pode nascer de opiniões isoladas, mas dos diagnósticos do IPCC e de esforços políticos empreendidos na mesa de negociações durante as Conferências das Partes.

O senhor está coordenando um estudo, que será lançado em 2009, sobre a economia das mudanças climáticas no Brasil, do qual fazem parte diversas instituições de pesquisas. Qual é o principal objetivo do estudo?

J. M.: Trata-se de um esforço inédito no Brasil em fornecer subsídios para a definição de estratégias locais em relação às mudanças climáticas, um esforço conjunto dos maiores centros nacionais de pesquisa. O desenvolvimento do estudo, de forma consorciada, e no âmbito da Academia Brasileira de Ciências, viabiliza uma ampla participação de lideranças brasileiras no tema. Além disso, o engajamento de representantes das principais agências nacionais e o destacado apoio do Governo do Reino Unido constituem um diferencial, que garante independência, amplitude e grande rigor técnico aos critérios adotados.

O estudo será apropriado pelo poder público em diferentes áreas ou ministérios?

J. M.: As autoridades brasileiras – representadas pelo Ministério das Relações Exteriores, pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, pelo Ministério do Meio Ambiente, bem como por várias agências especializadas e pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas – vêm acompanhando o trabalho em andamento. Vários componentes do estudo em andamento já têm sido colocados à disposição do governo. Mas seu uso posterior como base para uma Política Nacional de Mudanças Climáticas, embora previsível, decorrerá da avaliação soberana do governo brasileiro.