Segunda-feira, 21 de Maio de 2012 - 06:41
Artigo

Sociedade, clima e o desafio da informação

Paulo Moutinho *
Idioma: 
Português
Recentemente, o debate sobre a questão das mudanças climáticas ganhou força nos diversos setores da sociedade brasileira – especialmente após a publicação do Quarto Relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudança Climática, em 2007, e do relatório do economista inglês Nicholas Stern, em 2006. No primeiro, milhares de cientistas de todo o mundo anunciaram não haver mais dúvidas de que o aquecimento global até então medido é uma conseqüência direta da ação do ser humano.
 
O segundo trouxe, de maneira inédita, uma análise sobre os impactos econômicos da não-ação contra a mudança do clima – indicando que algo por volta de 20% do PIB mundial poderia ser necessário para diminuir o efeito do aquecimento terrestre caso não iniciássemos uma redução drástica já.
 
Apesar da evolução dessa discussão e dos contundentes relatórios sobre a situação urgente de combate à mudança climática, ainda é crônica a falta de oportunidades para que o problema seja absorvido e entendido por parte da sociedade, de modo a permitir-lhe uma tomada de decisão independente. A principal barreira, nesse contexto, ainda é a da informação.
 
Pode-se dizer que a maior parte do trabalho de conscientização e mobilização social no Brasil – e certamente em outros países, desenvolvidos ou não – sobre o problema da mudança do clima ainda não foi realizada. Há ainda baixo envolvimento e diminuto interesse de outros setores, incluindo a mídia, que não aqueles ligados diretamente à temática ambiental.
 
Mesmo dentro do governo, o tema da mudança climática ainda não atendeu ao tal princípio da “transversalidade” – isto é, ser agenda comum a todos os ministérios e órgãos oficiais –, apesar dos recentes esforços do Fórum Brasileiro de Mudança Climática (FBMC) e de alguns ministérios nesse sentido.
 
Embora alguns avanços tenham sido verificados, permanece ainda uma nítida sensação de que, a cada novo evento sobre o assunto, ocorre freqüentemente uma “pregação para convertidos”. Superar esta aparente saturação de instituições da sociedade trabalhando com o tema (e, portanto, previamente dispostas ao debate) caracteriza um dos nossos maiores desafios: informar bem e mais amplamente a toda a população, de modo a gerar condições para a tomada de posições que exijam providências dos governos.
 
 
Barreiras para a ampliação do diálogo
 
A dificuldade de se expandir e sustentar o debate na sociedade acerca de um tema ambiental baseia-se primariamente em alguns fatores:
  1. Proximidade ao problema (poluição do ar, por exemplo, desperta muito mais reação da população, se comparada às mudanças climáticas).
  2. Complexidade técnica com que o tema é debatido por aqueles que buscam soluções e tomam decisões.
  3. Número e tipo do acesso às fontes disponíveis de consulta.
  4. A qualidade e, especialmente, a simplicidade com que as informações estão disponíveis.
  5. A quantidade de oportunidades geradas para receber e gerar informações.
  6. Perspectivas de participação direta no debate.
  7. A “reatividade” (dependente dos fatores anteriores) da sociedade ao tema em questão.
 
Todos esses fatores tornam-se especialmente relevantes quando se trata de grandes problemas ambientais globais, como é o caso das mudanças climáticas. Nesse nível, as informações são usualmente geradas e analisadas em debates realizados internacionalmente no âmbito das Nações Unidas e de suas conferências e convenções. A tecnicidade exagerada e a complexidade diplomática costumam assustar os leigos e aqueles que são responsáveis pela disseminação da informação. Por conseqüência, o cidadão comum e suas organizações representativas ficam naturalmente excluídos do processo de entendimento e permanecem incapazes de contribuir.
 
Outra barreira para a disseminação da informação é o fato de que, diferentemente de outros problemas ambientais – como os relacionados à emissão de poluentes tóxicos, por exemplo –, o clima altera-se lentamente e é de difícil detecção pela população local, o que, por conseguinte, comove muito pouco os governantes. A escala de tempo relacionada à mudança é enorme (décadas). Assim, está além de mandatos de governos e de suas preocupações políticas ou mesmo do tempo de existência médio de muitas instituições da sociedade organizada.
 
O engajamento da sociedade no debate e na tomada de decisões também é dificultado pelo fato de que as fontes de emissões de gases de efeito estufa são difusas e variadas. Quando a origem do problema é de identificação simples, o processo de controle e exigência de solução por parte de diferentes setores da sociedade na sua solução torna-se mais fácil.
 
Um exemplo foi a redução, nos EUA, da emissão de dióxido de enxofre (SO2) – o gás que produz a chuva ácida. Esse resultado foi conseguido por meio da participação e da pressão de vários setores da sociedade. O que contribuiu para isso foi o fato de que as fontes emissoras são facilmente reconhecíveis (automóveis e termoelétricas) e a solução é tecnologicamente simples (instalação de catalisadores nos escapamentos e uso de carvão com baixo teor de enxofre nas usinas).SO2
 
No caso das fontes de emissões de gases de efeito estufa, a situação é bem mais complexa. Apesar da existência de um mecanismo de mercado previsto no Protocolo de Kyoto, a fonte de emissões não é isolada ou facilmente identificável. As indústrias de cimento, as usinas termoelétricas e hidrelétricas, os transportes, as queimadas, a agricultura, o gado, os lixões e o desmatamento de florestas, entre outros fatores, são fontes de emissão e estão espalhados em diferentes proporções ao redor do mundo. Dessa forma, a solução do problema é muito mais complicada do que simplesmente executar, pela via tecnológica, a troca de um composto poluente por outro inócuo ou eliminar parte significativa das emissões atuando simplesmente em uma ou outra fonte.
 
 
Perspectivas para a atuação da sociedade
 
Apesar dessas dificuldades, há no Brasil um potencial enorme de engajamento da sociedade no debate e na busca de soluções sobre o problema do clima. Nosso país tem produzido discussões qualificadas e propostas concretas que vêm auxiliando no tratamento do assunto – o exemplo mais contundente de tal processo está no envolvimento de populações indígenas e tradicionais nessas discussões. Contudo, são necessários meios para que esse potencial se amplie.
 
Será necessário, em primeiro lugar, que haja uma capacitação urgente e qualificada da sociedade brasileira nas questões sobre mudança do clima – por exemplo, por meio de programas oficiais e sociais de educação. É fundamental, nesse sentido, o estabelecimento de uma política nacional de mudança climática que proponha e dê suporte aos instrumentos de educação, capacitação e disseminação de informações para a sociedade – como reforçam os membros do Observatório do Clima, uma rede de ONGs e Movimentos Sociais, ao apresentarem ao Congresso  Nacional, em novembro de 2008, uma proposta de Política Nacional sobre Mudança do Clima.
 
Tais instrumentos devem ser implementados nos níveis local, regional e nacional, incluindo aí uma reformulação nos currículos das escolas públicas para que estas introduzam a temática em seus programas didáticos de maneira mais profunda. Os currículos escolares devem ir além da abordagem ambiental sobre o problema e partir para uma exploração dos aspectos políticos e geopolíticos que envolvem o assunto.
 
Em segundo lugar, é importante que se implementem e se apóiem mecanismos (fóruns, conselhos e redes) de debates, consulta e deliberação. É necessário que haja, cada vez mais, condições para que a participação efetiva de diferentes setores da sociedade seja garantida. O FBMC, por exemplo, é um passo nesse sentido, mas ainda não está totalmente preparado e com os suportes exigidos para que uma ampla e sistematizada articulação nacional seja possível. O mesmo acontece com inúmeros fóruns estaduais recentemente criados e com as várias redes de organizações da sociedade civil.
 
É preciso, também, garantir meios para que esses espaços possam ser utilizados de modo igualitário pelos diferentes setores da sociedade. Cabe lembrar que o gargalo para a disseminação da informação não está necessariamente na quantidade disponível, mas sim em como ela é apresentada. Será preciso, portanto, que – antes de receber uma avalanche de informações – a sociedade tenha tempo e oportunidade de se preparar para absorvê-las.
 
 
A questão da imprensa
 
Finalmente, os veículos de disseminação de informações – incluindo aí a mídia convencional – devem atuar de forma consistente, analítica, reivindicatória e propositiva, superando a atual tendência de explorar apenas a denúncia. A pesquisa Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira, realizada pela ANDI e pela Embaixada Britânica, mostra, entre outros aspectos, que está havendo certo interesse da mídia pelo tema. Esse processo, contudo, ainda precisa ser aprofundado.
 
O estudo também indica que o assunto ainda está concentrado na imprensa de abrangência nacional (Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, O Globo e Correio Braziliense) – fator que restringe o acesso eqüitativo das populações distantes dos grandes centros às informações sobre o tema. A pesquisa constata também que falta nas matérias indicação do contexto em que o assunto em questão está inserido. Não há informações, por exemplo, sobre o que vem a ser “mudança climática”.
                                                                                                             
Como qualquer leitor mais assíduo pode constatar, há um alarmismo generalizado que domina as reportagens sobre o assunto, mas pouco se lê sobre o que se fazer para solucionar o problema e muito menos sobre o que o causa. A pesquisa mostra claramente que a maior parte do material analisado tem como viés a questão ambiental e econômica, mas não social, e que a imprensa não transmite a possibilidade de soluções ou não ajuda a apontar caminhos.
 
Tal situação pode ocasionar, em parte, um desestímulo do cidadão em conhecer melhor a problemática da mudança climática, gerando uma sensação de impotência e apatia da sociedade brasileira em relação ao assunto, o que coloca em risco seu potencial de engajamento nos debates até então demonstrado no país.
 
Por inúmeras vezes, a reação, especialmente de jovens, ao assunto tem sido aquela de que não há o que fazer – como a situação é tão grave, qualquer esforço seria incapaz de gerar resultado significativo. Vários chegam a expressar a intenção de não ter filhos, pois não vêem futuro (climático) promissor para eles. Isso indica que a dimensão humana e social da mudança climática não vem sendo devidamente tratada e debatida no país.
 
Vale ressaltar que, do nosso ponto de vista, somente uma sociedade bem informada será capaz de buscar soluções, reverter processos danosos em curso ou, no mínimo, de se adaptar, com o menor custo possível, às mudanças que estão por vir. Estar bem informado sobre o aquecimento do planeta e suas conseqüências, portanto, é crítico, especialmente no contexto dos países pobres ou em desenvolvimento como o Brasil.
 
* Coordenador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e membro do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.