Quinta-feira, 29 de Julho de 2010 - 16:19

OPORTUNIDADES DE GERAÇÃO DE EMPREGOS VERDES NO BRASIL

Paulo Sergio Muçouçah
Coordenador dos Programas de Trabalho Decente e Empregos Verdes da OIT no Brasil
Data de Início: 
11/08/2009
Data de Encerramento: 
25/08/2009

A exemplo do que já vem ocorrendo em várias partes do mundo, os empregos verdes acabaram entrando na ordem do dia também em nosso país. Um bom indicador disso é o espaço que diversos meios de comunicação tem dedicado a este assunto nos últimos tempos. Para tanto, pode ter contribuído bastante o fato do Presidente Barack Obama colocar os investimentos em energias renováveis e em reformas para a adequação ambiental de edifícios públicos no centro das suas medidas de combate à crise econômica nos EUA. E certamente não o fez por acaso: ele deve ter se inspirado em estudos que demonstram que o direcionamento de recursos financeiros para esses setores tende a criar em média 18 empregos por milhão de dólares investido, contra apenas 14 empregos por milhão de dólares gerados pela desoneração de impostos levada a cabo naquele país durante a década de oitenta.

A sociedade americana vem respondendo prontamente a este desafio. Em todo o país, surgiram desde o ano passado um grande número de coletivos para a promoção dos empregos verdes, sob o lema “Green Jobs: we are ready”. Essa campanha - que tem como símbolo um capacete de obras na cor verde – já chega a evocar a lembrança da mobilização social desencadeada pela entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, cujos impactos econômicos foram responsáveis pela superação definitiva da Grande Depressão dos anos 30.

Aqui no Brasil, ainda estamos muito longe disso. Entretanto, algumas recentes medidas do governo parecem indicar que o enorme potencial de geração de empregos verdes da economia brasileira começa a ser explorado. Os incentivos à instalação de painéis solares nas casas a serem construídas pelo programa “Minha Casa, Minha Vida” podem criar, por si só, 18.000 novos empregos para a produção, instalação e manutenção desses equipamentos. A redução do IPI para eletrodomésticos da linha branca, ao mesmo tempo em que promove uma significativa economia de energia elétrica pela substituição de aparelhos antigos por modelos novos mais eco-eficientes, tem assegurado a recuperação da produção e do emprego neste setor, um dos primeiros a serem atingidos pela crise econômica em nosso país. Se a prorrogação do prazo de vigência dessa redução do IPI for condicionada ao lançamento de um programa de logística reversa e de reciclagem para o recolhimento, desmonte e reaproveitamento dos componentes das velhas geladeiras, como se espera, teremos a criação de um número bem maior de postos de trabalho, além da emergência de novas e promissoras oportunidades de negócios.

Tanto a instalação de painéis solares como a aquisição de geladeiras novas fazem parte - juntamente com uma centena de outros requisitos de caráter ambiental e social - dos critérios a serem adotados pela Caixa Econômica Federal para a concessão do seu selo “Casa Azul” para os projetos de construção que pleitearem o seu financiamento a partir de janeiro do próximo ano. Trata-se de um sistema de certificação que, embora voluntário, poderá dar grande visibilidade às boas práticas nos empreendimentos imobiliários. Porém, ele certamente ganharia maior eficiência em termos de disseminação de padrões de construção sustentável e de geração de empregos verdes na medida em que viesse a associar diretamente incentivos econômicos à sua adoção, tais como a redução dos juros dos financiamentos de acordo com a quantidade de exigências ambientais e sociais atendidas pelos projetos.


Biodiesel e recuperação florestal podem fazer diferença

Uma outra iniciativa que traz consigo um bom potencial de geração de empregos verdes é a ampliação até o final deste ano de 3% para 5% de mistura de biodiesel no combustível que movimenta a grande maioria dos veículos de transporte de cargas deste país. Além de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, essa ampliação implicará num aumento de 2/3 da produção de biodiesel, que hoje tem ficado a cargo sobretudo dos grandes produtores de soja. Espera-se que essa demanda adicional de matéria prima venha a ser suprida preferencialmente pelos pequenos agricultores, criando assim um maior número de postos de trabalho no campo.

A lei recentemente aprovada pelo Congresso que regulariza propriedades fundiárias de menos de 1500 hectares na Amazônia, a despeito dos seus aspectos bastante polêmicos, também proporciona uma ótima oportunidade de geração de empregos verdes. Ela condiciona a regularização dessas propriedades á recuperação das suas reservas legais de vegetação nativa, já degradadas em grande parte delas. A recuperação dessas reservas exigirá o plantio de extensas áreas de florestas, o que pressupõe a produção de milhões de mudas de espécies nativas daquele bioma. Dezenas de milhares de trabalhadores terão que ser empregados no cultivo de sementes e mudas, no plantio e na conservação dessas florestas. O BNDES acaba de abrir uma linha de financiamento especificamente para essas atividades. Elas certamente serão ainda mais alavancadas caso a Conferência sobre a Convenção do Clima que se realizará em Copenhague no fim do ano venha a aprovar medidas efetivas de incentivo econômico à manutenção das florestas em pé. Os planos de manejo florestal sustentável passariam a gerar mais trabalho e renda do que a agricultura e a pecuária que hoje avançam pela região.

Embora ainda limitadas, essas medidas sinalizam um caminho para resgatar o compromisso assumido pelo Presidente da República ao assinar em junho deste ano uma Declaração Conjunta com o Diretor Geral da OIT, na qual ele manifesta o seu apoio à Iniciativa Empregos Verdes promovida pela OIT, pelo PNUMA, pela CSI – Confederação Sindical Internacional - e pela OIE – Organização Internacional de Empregadores. Nesta mesma ocasião, a delegação brasileira presente à 98ª Sessão da Conferência Internacional do Trabalho em Genebra – composta por representantes do governo, dos trabalhadores e dos empregadores – comprometeu-se a dar continuidade à elaboração e implementação do Plano Nacional de Trabalho Decente - PNTD. Este Plano estabelece como seu primeiro resultado o direcionamento dos investimentos públicos e privados e os incentivos fiscais e financeiros para “setores estratégicos e/ou intensivos em mão de obra”, entre os quais os “empreendimentos para a melhoria e/ou conservação da qualidade ambiental”.

Transformar isso em realidade não depende apenas do governo. É preciso que a sociedade brasileira agora também faça a sua parte.

Comentários

20/08

Green Jobs X Red Custs - A

Submitted by ALESSANDRO PURC... on qui, 20/08/2009 - 18:00.
Green Jobs X Red Custs - A maior dificuldade com relação ao preço mais alto do "produto verde" está na participação dos acionistas. Em outras palavras, não é que todo produto ecologicamente correto tenha custos mais altos de produção do que os demais. A questão é que as empresas não irão optar por um cliclo de produção de baixo carbono se a margem de lucro for menor. Infelizmente a "consciência ambiental" assim como outras sensibilidades humanas passam necessariamente pelo bolso. Além disso, os "produtos verdes" só começarão a reduzir seus custos com a produção em escala. Para isso a demanda (consciência ambiental) também tem que crescer. Como as empresas em geral só mudam de atitude se observarem algum risco para seus sócios/acionistas, cabe à sociedade mostrar que só irá comprar produtos ecologicamente corretos (demanda) ou ainda, cabe aos centros de pesquisa e desenvolvimento apontar caminhos (avanço tecnológico) que permitam a redução dos custos e da emissão de carbono, concomitantemente.
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19/08

O conceito de empregos verdes

Submitted by Paulo Sergio Mu... on qua, 19/08/2009 - 09:22.
O conceito de empregos verdes utilizado no texto - e que embasa a Iniciativa Empregos Verdes OIT - procura articular as três dimensões da noção de sustentabilidade: a econômica, a social e a ambiental. A primeira dimensão exige que os empregos a serem criados sejam produtivos, economicamente viáveis e sustentáveis ao longo do tempo, o que pressupõe que eles venham a atender a demandas concretas do mercado. A segunda dimensão se expressa na íntima associação que a OIT estabelece entre empregos verdes e trabalho decente, que é um outro conceito que essa organização já vem adotando há mais tempo. A OIT define trabalho decente como um trabalho produtivo, adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, igualdade e segurança, que seja capaz de garantir uma existência digna para os trabalhadores(as) e suas famílias. Finalmente, a terceira dimensão se refere à capacidade desses empregos reduzirem às emissões de carbono, contribuindo assim para a conservação ou melhoria da qualidade ambiental.
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12/08

Emprego Verde - Primeiramente

Submitted by ALESSANDRO PURC... on qua, 12/08/2009 - 17:17.
Emprego Verde - Primeiramente temos que ter em mente que não há como tratar da questão ambiental de forma isolada; pois o fechamento de uma atividade que agride o meio ambiente pode resultar em dezenas ou centenas de empregos, que na própria fala do ministro Minc, "não são substituídos automaticamente por empregos verdes". Imaginemos quantos postos de trabalho seriam fechados se o país proibisse a utilização de garrafas "pets" pela indústria de bebidas (refrigerantes, água, etc). Sem dúvidas o resultado para o meio ambiente seria maravilhoso; todavia, o impacto social seria muito grande, pelo menos no início, pois as fábricas mais novas não possuem equipamentos e estrutura para atender o mercado apenas com garrafas de vidro. Como resultado os preços da matéria-prima e dos próprios produtos subiriam drasticamente e os empresários teriam que reestruturar o parque industrial. Assim, para se obter o equilíbio vislumbrado na sustentabilidade, temos que utilizar uma abordagem socio-econômico-ambiental, pois o resultado do fechamento daqueles postos de trabalho, pode resultar no aumento da criminalidade, redução das atividades do comércio local, aumento do número de indigentes, prostitutas e das DSTs, etc. Um dos pontos a serem pensados antes da propositura do fechamento de certas empresas, bem como na solução de certos problemas socioambientais, é a engenharia reversa de alguns processos. Um exemplo bem sucedido é a responsabilização dos fabricantes de celulares pela coleta e destinação adequada das baterias descartadas. A meu ver, o mesmo deveria ser feito com as empresas de bebidas com relação às garrafas "pets" de menor valor comercial como sucata/matéria-prima. Tal decisão não prejudica as associações de catadores de recicláveis, pelo contrário; pois tal material teria mercado garantido. Além disso, o serviço de limpeza pública não teria que se preocupar com esse tipo de material, a exemplo do que ocorre atualmente com as latas de alumínio. Uma forma de incentivar o empresariado a fazer tal coleta ao invés de forçá-lo pelo método repressivo (multas e processos) é gerar um "ativo" comercializável, a exemplo do crédito de carbono. Em síntese, o meio ambiente sofreria menor impacto, a sociedade teria a criação de empregos verdes e setor produtivo teria um retorno ao "investimento ambiental".
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Assim, para se obter o equilíbio vislumbrado na sustentabilidade, temos que utilizar uma abordagem socio-econômico-ambiental, pois o resultado do fechamento daqueles postos de trabalho, pode resultar no aumento da criminalidade, redução das atividades do comércio local, aumento do número de indigentes, prostitutas e das DSTs, etc.

Um dos pontos a serem pensados antes da propositura do fechamento de certas empresas, bem como na solução de certos problemas socioambientais,  é a engenharia reversa de alguns processos.

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A meu ver, o mesmo deveria ser feito com as empresas de bebidas com relação às garrafas "pets" de menor valor comercial como sucata/matéria-prima.

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19/08

Alexandre, os fabricantes de

Submitted by Paulo Sergio Mu... on qua, 19/08/2009 - 09:23.
Alexandre, os fabricantes de refrigerantes no Brasil acabaram adotando as embalagens PET sobretudo devido à pressão dos supermercados, que não queriam mais arcar com os custos de mão de obra para o recolhimento e dos espaços para o armazenamento das embalagens retornáveis. Além de serem mais baratas, as embalagens de vidro criam mais empregos, produzem menos resíduos e consomem menos recursos naturais na sua fabricação.
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13/08

Acrescento questionamentos a

Submitted by Ivo Bulhoes on qui, 13/08/2009 - 15:51.
Acrescento questionamentos a sua excelente explanação: Quem estará disposto a pagar mais caro por “produto verde”? Como será a fiscalização da produção, distribuição e a tributação do “produto verde”? Como as forças de mercado reagiriam ao possível deslocamento de parte importante do contingente braçal para a região Norte? Haveria uma nova onda migratória atingindo a região amazônica? Quais serão os impactos sociais, econômicos e ambientais de uma nova leva de aventureiros? O que não se pode aceitar é a proposição de ofertar a região amazônica por barganha verde.
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13/08

"Transformar isso em

Submitted by Ivo Bulhoes on qui, 13/08/2009 - 15:29.
"Transformar isso em realidade não depende apenas do governo. É preciso que a sociedade brasileira agora também faça a sua parte." Essa é a única sentença que merece ser levada em consideração. O que determina o rumo da economia, da política, da moda é uma decisão de mercado, manipulada ou não. Enquanto a sociedade brasileira não se convencer da necessidade de uma mudança de hábitos ficaremos no panis et circenses romano (ou cachaça e futebol brasileiro) de sempre.
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19/08

Ivo, a Amazônia brasileira

Submitted by Paulo Sergio Mu... on qua, 19/08/2009 - 09:24.
Ivo, a Amazônia brasileira abriga atualmente mais de 25 milhões de habitantes, dos quais cerca de 15 milhões compõem a sua População Economicamente Ativa. Calcula-se que apenas a extração ilegal de madeira ocupa hoje por volta de 110 mil trabalhadores em toda a região. Caso essa atividade venha a ser eficientemente reprimida ou desestimulada, o que fazer com todo esse contingente de mão de obra ?
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