Sexta-feira, 22 de Agosto de 2014 - 16:37
Artigo

Energia nuclear é uma boa solução para o Brasil (Nordeste)?

Heitor Scalambrini Costa *
07/01/2010
Idioma: 
Português

 Para responder a questão se “a energia nuclear é uma boa solução para o Brasil (Nordeste)?”, caberia discutir se essa alternativa de geração de energia elétrica é econômica, segura e ambientalmente limpa. Minha resposta é fácil: NÃO

Sobre a economicidade dessas usinas núcleo-elétricas, segundo os estudos da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o custo da eletricidade nuclear de Angra 3 ficará em torno de R$ 138/MWh, abaixo dos custos de termoelétricas a gás e  carvão importado, e abaixo dos custos da eletricidade eólica (R$ 240) e solar (R$ 1.798). Ainda sobre Angra 3 a Eletronuclear informa que o empreendimento custará R$ 7,2 bilhões, sendo que 70% do financiamento virão de recursos do BNDES e fontes estatais, e os outros 30% de investidores internacionais. É importante destacar, entretanto, que as condições de financiamento são controversas, já que a Eletronuclear assumiu uma taxa de retorno para o investimento entre 8% e 10% – muito abaixo das praticadas pelo mercado, que variam de 12% a 18%. Somente uma taxa de retorno tão baixa pode viabilizar a tarifa de R$ 138 MW/h.

Tal operação a baixas taxas de juros revela que existe um subsídio estatal à construção de Angra 3. Estudos têm mostrado que somados juros e financiamento, a usina não sairá por menos de R$ 9,5 bilhões, sem contar os R$ 1,5 bilhão gastos até agora. Esses subsídios ocultos são perversos, porque serão disfarçados nas contas de luz. Se isso acontecer, quem vai pagar a conta seremos nós, usuários, que já pagamos uma das mais altas tarifas de energia elétrica do mundo.

Energia de fato mais cara


A título de comparação de custos, a energia da hidrelétrica de Santo Antônio foi negociada a uma tarifa de R$ 79/MWh e a da hidrelétrica de Jirau, R$ 91/MWh (ambas estão situadas no Rio Madeira), e o resultado do primeiro leilão de energia eólica no Brasil deixou o MWh em torno de R$ 148. Valores bem mais reduzidos que o apontado pela EPE para justificar a suposta viabilidade econômica da opção nuclear. Com os R$ 7,2 bilhões alocados para Angra 3, seria possível construir um parque eólico com o dobro da capacidade da usina nuclear (1.350 MW) em apenas dois anos, sem a geração de lixo radioativo ou risco de acidentes.


Além disso, em termos prioritários de utilização desse “dinheirão”, dados do Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica) mostram que cada R$ 1 bilhão empregado em programas de eficiência energética resulta em uma economia na potência instalada de 7.400 MW, o equivalente a 5,5 vezes a potência de Angra 3 ou a metade de Itaipu. Logo, se uma usina nuclear custa mais de R$ 7 bilhões, pode-se concluir que cada R$ 1 bilhão investido em eficiência pode evitar investimentos de até R$ 40 bilhões para gerar a mesma quantidade de eletricidade nuclear. Podemos considerar que a médio e longo prazo, a destinação de recursos públicos para a opção nuclear será um verdadeiro obstáculo ao estabelecimento de políticas de incentivo e promoção de energias renováveis no país.

Perigo no ar


Quanto à questão da segurança, apesar dos renovados esforços da indústria nuclear em apresentar-se como segura, acidentes em instalações nucleares em diversos países continuam a demonstrar que esta tecnologia é perigosa, oferecendo constantes riscos que podem trazer conseqüências catastróficas ao meio ambiente e à humanidade. O exemplo mais recente foi o acidente pós-terremoto de 6,8 na escala Richter em julho de 2007  na maior usina atômica do mundo, localizada em Kashiwazaki-Kariwa, no Japão – que provocou a emissão de gás radioativo para a atmosfera, além de seu vazamento para o mar.

Não podemos nos esquecer dos incidentes graves com reatores em Chernobyl (Ucrânia) e Three Milles Island (EUA). O primeiro ocorreu em abril de1986, com a explosão de um dos reatores, fazendo com que uma nuvem radioativa cobrisse todo o centro-sul europeu. E em Three Milles Island, em março de 1979, o acidente provocou grande extensão de danos, mas sem vítima nem vazamento de radiação para o ambiente. Acidentes em uma usina nuclear têm baixa probabilidade de ocorrência, mas quando acontecem são de extrema gravidade em termos tanto dos impactos sobre a saúde humana quanto ao meio ambiente. Embora pequeno, tal risco, existe, e não pode ser negligenciado. Ademais, essas usinas não resolveram o problema dos rejeitos de alta atividade, cuja deposição final demanda pesados investimentos. Estima-se que estes rejeitos tenham que ficar isolados durante 10 mil anos.

Emissões subestimadas

Do ponto de vista ambiental, a afirmação de que as centrais nucleares são “limpas” quanto à emissão de gases estufa reflete uma imensa falta de informação sobre sua tecnologia e sobre as condições de funcionamento das etapas da cadeia de obtenção e de processamento do combustível que alimenta as usinas.Os defensores desta tecnologia não incorporam em seus cálculos  o processo completo da produção da eletricidade – o chamado ciclo do combustível nuclear. Se consideramos a mineração do urânio, o transporte, o enriquecimento, a posterior desmontagem da central e o processamento e confinamento dos rejeitos radioativos, esta opção produz entre 30 e 60 gramas de CO2 por kWh gerado, segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica. O cálculo que faz o Oxford Research Group chega a 113 gramas de CO2 por kWh. Isso é aproximadamente o que produz uma central a gás.

No caso do enriquecimento para obtenção do combustível nuclear, os minérios que contém o metal pesado Urânio são complicadíssimos de serem "beneficiados", o que leva à produção de gases estufa em todas as etapas do processo. Para obter 30 kg do o Urânio enriquecido que interessa aos reatores, teríamos que rejeitar  970 kg de materiais. Para isso, se gasta uma enormidade de energia, inclusive na forma de vapor de água e de eletricidade produzidas em termoelétricas convencionais – grandes produtoras de CO2, de vapor de H2O e de gases nitrogenados –, e em hidroelétricas. Também, o uso de água na tecnologia nuclear é alto. Então, a análise deve considerar a quantidade de energia que colocamos de antemão para produzir a energia elétrica. É importante não omitir esses dados no debate sobre as soluções ao desafio energético do país.

E aí cabe mais uma mentira: a de que hidroelétrica não emite gás estufa. Basta pensar que as represas, sobretudo em regiões quentes e áridas ou semi-áridas evaporam muito, e de novo teremos o vapor H20, e também o gás metano emanado da decomposição de matéria orgânica, nas represas que cobriram muita vegetação e camada de húmus. A insistência em considerar a eletricidade nuclear como uma “fonte limpa” é tão grave quanto considerar a hidroelétrica em geral como renovável e não “poluidora”.


Um problema para o futuro

Além das questões econômicas, de segurança e ambientais, existe ainda um problema ético: não se deve deixar para as futuras gerações a resolução de problemas da época presente. E isso está ocorrendo com os depósitos (ainda relativamente pequenos) de rejeitos de alta radioatividade (lixo atômico) que permanecem em piscinas nas proximidades dos reatores. Além disso, a construção de novas usinas nucleares é sempre uma porta aberta para a possibilidade de produção de artefatos nucleares para fins militares, e para o uso não pacífico dessa tecnologia.

O que a sociedade brasileira condena e não aceita mais é a falta de transparência sobre as escolha das opções energéticas, impedindo o acesso a informações  sobre como e onde seu dinheiro está sendo investido. Os custos econômicos, ambientais e sociais de usinas nucleares no Brasil (Nordeste) são altíssimos, e nada pode explicar tanta insistência com projetos tão desnecessários para o país e tão ineficazes em termos de geração de energia elétrica.

O debate energético atual se baseia em um modelo “ofertista” com recursos fósseis, com mega-hidroelétricas e com usinas nucleares. Ele precisa e deve ser substituído por um projeto diferente, contemporâneo dos desafios e possibilidades do século XXI, para que tenhamos segurança energética em longo prazo, com a diversificação e a complementaridade da matriz energética nacional, e com fontes renováveis de energia, levando assim em conta, um modelo de desenvolvimento sustentável.



*Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco . Graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), Mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco e Doutorado em Energética na Universidade de Marselha/Comissariado de Energia Atômica-França.