Quinta-feira, 11 de Março de 2010 - 06:43
Entrevista

Alexandre Mansur

Há 16 anos cobrindo meio ambiente, o editor de Ciência & Tecnologia da revista Época, Alexandre Mansur, testemunhou nos últimos três anos alterações significativas no tratamento editorial dos temas de sua área. Ele conta como as mudanças climáticas passaram de tema periférico para o status de prioridade no semanário e o ganho de qualidade ocorrido ao inserir essa perspectiva transversal às reportagens das diferentes editorias. Na entrevista abaixo, Mansur reflete sobre os desafios e oportunidades da imprensa na cobertura das alterações do clima.


Como a Época, uma revista semanal, está pensando a questão de mudanças climáticas no âmbito da pauta mais ampla de meio ambiente?

A. M.: Estamos pensando mudanças climáticas dentro da pauta geral da revista, não só de meio ambiente. Isso em si já é uma novidade. Eu já passei por várias experiências de cobertura ambiental em vários veículos, desde 1990, nas quais essa cobertura era realizada dentro de uma editoria especifica. O tema ficava aprisionado na editoria e, às vezes, em conflito com o resto do jornal ou da revista. Havia uma geração de conhecimento, de abordagem e posturas em relação à temática ambiental, mas o resto do veículo seguia por caminhos completamente diferentes. O jornalista ambiental abordava a precaução em relação a uma determinada prática agrícola e o pessoal que cobria economia falava o contrário.

Como está funcionando na prática essa transversalidade do tema mudanças climáticas?

A. M.: A direção da revista Época e a própria Editora Globo entenderam que esse é um dos temas mais importantes para as próximas décadas. Temos quatro temáticas que são prioridades em relação aos nossos valores e a partir de onde a gente vai conduzir a cobertura: mudanças climáticas, tecnologia, educação e transparência na área de administração.

O senhor pode dar um exemplo de como isso vem sendo implementado?

A. M.: Todas as editorias da revista levam o tema mudanças climáticas em consideração quando forem cobrir qualquer assunto. Quando os repórteres de economia vão fazer alguma matéria que fala de sustentabilidade, energia limpa ou energia fóssil – ou qualquer outra questão – irão considerar mudanças climáticas. A editoria de Ciência pode fazer a matéria junto, dar uma assessoria ou construir sozinha a reportagem. O texto, entretanto, irá entrar na seção de economia. Não há mais uma divisão de setores, estamos dentro de todas as editorias. Quando acontece, por exemplo, um conflito envolvendo índios por causa da construção de uma hidrelétrica na Amazônia, e os repórteres da sucursal de Brasília são os responsáveis pela apuração, eles não fazem a matérias sozinhos, mas sim com a ajuda dos repórteres de meio ambiente. Se formos fazer uma matéria a respeito da negociação de carbono na bolsa de valores por parte das empresas e a vantagem competitiva desse processo, o repórter de economia vai aportar o conhecimento técnico que eu não tenho. Então, fazemos uma coisa combinada e que soma o melhor dos conhecimentos.

E o senhor sentiu nesse período um aumento na qualidade das matérias? Isso é perceptível?

A. M.: Mudou a qualidade e mudou o volume. Como é um tema prioritário, a gente não tem mais que brigar para o assunto entrar na pauta. A direção da empresa está convencida de que as mudanças climáticas vão ser um grande desafio para a humanidade. Esse não é um tema efêmero. Há uns três anos atrás, nós tínhamos uma média de publicação de uma matéria sobre mudanças climáticas a cada dois meses. Agora, publicamos toda semana alguma coisa sobre o tema.

Muitas vezes, a mudança climática não é o assunto principal, mas está inserida nos textos, porque virou um assunto de fundo. Por ser uma prioridade, conseguimos entrar em grandes projetos. Por exemplo, a Época foi a primeira revista que fez uma edição especial verde dedicada às mudanças climáticas, e compensou as emissões dessa edição. A revista já fez três edições anuais especiais sobre alterações do clima e, agora, está promovendo um prêmio para empresas. Então, temos liberdade para encaixar o tema no calendário e conduzir editorialmente esse conteúdo.

Quais são os desafios e as dificuldades para cobrir esse tema?

A. M.: Inúmeros. O tema é muito complicado e repórteres e editores têm que aprender rapidamente muita coisa. O conhecimento cientifico e o próprio desenvolvimento das práticas ligadas às mudanças climáticas estão andando muito rápido e existe muita incerteza ainda em relação a tudo. Qual o papel dos furacões? Como a agricultura será afetada? Até que ponto você pode prever ou não prever alguma coisa? Estamos tendo que transmitir essas questões para o leitor na mesma velocidade. Existem leitores que não sabem nada, leitores que misturam aquecimento global com buraco na camada de ozônio, e leitores que já entendem bastante do assunto a ponto de saber que o nitrogênio dos fertilizantes termina tendo um papel no aquecimento global. Então, é preciso ser didático. E não é só o conhecimento cientifico que está andando muito rápido, são as próprias reações ao problema. As iniciativas de comércio de carbono estão cada vez mais complexas, existem selos para o setor de construção, selos para o de tecido... O mundo está ficando mais complexo.

As pessoas ainda não sentem as mudanças climáticas como algo que faça parte de suas vidas. Está faltando fazer mais esse vínculo com o dia-a-dia e o local?

A. M.: Eu acho que não há muito como fazer essa conexão, porque realmente, no momento, as pessoas no Brasil não estão sentindo isso. Essa inclusive é uma dificuldade dessa crise climática em relação a outras crises da humanidade. É aquela comparação, que várias vezes já foi feita, de que atuamos como se estivéssemos naquele momento em que os nazistas estão invadindo a Polônia e não se está fazendo nada porque as bombas ainda não começaram a cair em Londres. O problema é que as bombas só vão cair daqui a 50 anos e quando elas começarem a cair, já vai ser tarde demais. Estamos num momento em que as conseqüências do aquecimento global ainda são muito sutis para o cidadão comum. Existem coisas muito isoladas que podem ser ligadas ao aquecimento global, que é uma seca extraordinária na Austrália e o encolhimento do Ártico.

Quer dizer, ainda não há um grande desastre ambiental relacionado às mudanças climáticas afetando diretamente o Brasil. Por outro lado, é importante o jornalismo de processo, no sentido preventivo mesmo, buscando contribuir para que esse problema aconteça, não é?

A. M.: Não é preciso mais ser o repórter do apocalipse. Eu passei 20 anos da minha carreira sendo profeta do apocalipse em relação às mudanças climáticas. Agora acabou essa fase. De três anos para cá, não falamos mais da catástrofe que virá, mas sim de como o mundo já está se preparando e quais são as oportunidades. E quem começar a se preparar na frente vai se dar melhor. Agora o discurso é outro, não é falar o que vai acontecer, mas sim o que nós vamos fazer para evitar isso.

Hoje o desmatamento e as queimadas na Amazônia são pautas centrais para a revista em mudanças climáticas?

A. M.: Se você pensar que 70% das emissões brasileiras são oriundas de desmatamento, não tem como falar de mudanças climáticas sem falar de desmatamento. É “o” problema brasileiro.

Como é cobrir a Amazônia, um universo tão amplo e complexo?

A. M.: É muito complicado. O problema hoje é falta de dinheiro, porque todas as viagens são muito caras. Manter alguém lá também é muito caro, porque não adianta deixar a pessoa parada, ela tem que viajar muito. O acesso é difícil porque depende de estrada ruim. É como se fosse a África, é muito distante. E o leitor, o anunciante, o PIB do Brasil não estão lá, então o problema se torna muito externo ao país. Se você pensar de maneira bem cínica, os brasileiros querem que aquilo se resolva, mas não sabem como e não querem saber direito. Também existem problemas de compreensão, porque ainda lidamos com muitos preconceitos arraigados e com várias dificuldades para a assimilação de conceitos: o conceito de que existe uma maneira de extrair a madeira e ao mesmo tempo deixar a floresta em pé; o preconceito de que desmatar traz progresso; a dificuldade de entender que não estamos falando de terra privada, mas de terra pública; e de entender o processo fundiário. Na verdade, a temática envolve uma disputa por terra pública tomada ilegalmente. Há uma série de conceitos muito básicos que o leitor não sabe, e que os jornalistas muitas vezes também não.

Como vocês estão tentando driblar essa dificuldade para conseguir cobrir a Amazônia?

A. M.: Usamos todos os recursos disponíveis para fazer todas as viagens estratégicas e planejamos muito bem quando vamos a algum lugar. Também tentamos ao máximo possível dar inteligência para a cobertura, buscando entender as causas do processo.

O senhor pode citar algumas matérias nas quais a abordagem tenha contribuído para enriquecer a discussão sobre o desmatamento nesta região?

A. M.: A revista publicou um especial sobre biomassa e dedicou um capítulo especial sobre carvão vegetal. Abordamos uma temática sobre a qual ninguém estava falando, a de que o aço brasileiro é feito, em boa parte, de carvão de desmatamento – e de o quanto a siderurgia brasileira tem um problema pela frente, que deverá enfrentar em algum momento. Acho que isso alertou as empresas, os compradores. Esse assunto saiu da zona de sombra, e passou a ser discutido abertamente. Percebi que houve uma mudança. Em outro momento, estava todo mundo debatendo o papel da pecuária no desmatamento e nós levantamos os dez maiores frigoríficos que atuam na Amazônia, evidenciando como estão perto de áreas de desmatamento ilegal. Também mudou o foco de discussão. Em uma outra reportagem, quando todos estavam falando que era necessário desmatar para aumentar a área plantada, nós publicamos um estudo da quantidade de terra abandonada na Amazônia e porque não se usa essa terra, que já foi desmatada e está abandonada, em vez de desmatar uma área nova.